Vitória nacional por 2,22 milhões de votos, força da direita em São Paulo e no Sul e avanço do PL no Congresso formam um mapa favorável a Flávio Bolsonaro. Nordeste mantém Lula competitivo e impede, porém, que o segundo turno seja considerado decidido.
Flávio Bolsonaro (PL) entrará no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 em uma posição que vai além da vantagem numérica obtida sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo, 4 de outubro.
Com 100% das seções totalizadas, Flávio recebeu 56.104.503 votos, ou 47,03% dos válidos. Lula terminou com 53.879.538, ou 45,16%. A diferença foi de 2.224.965 votos e 1,87 ponto percentual.
A distância é pequena para os padrões de uma eleição nacional. Mas a geografia do voto, os resultados estaduais e a composição produzida simultaneamente para Câmara e Senado oferecem elementos que tornam a liderança de Flávio politicamente mais relevante do que os 1,87 ponto sugerem isoladamente.
SÃO PAULO DEU A FLÁVIO MAIS DE 3,4 MILHÕES DE VOTOS DE VANTAGEM
São Paulo, maior colégio eleitoral brasileiro, foi um dos principais responsáveis pelo primeiro lugar de Flávio.
O candidato do PL recebeu 12.920.954 votos, ou 51,93% dos válidos, contra 9.504.628 votos e 38,20% de Lula.
Foram 3.416.326 votos de vantagem para Flávio somente no Estado — diferença de 13,73 pontos percentuais.
É um número extraordinariamente relevante porque, sozinho, São Paulo forneceu a Flávio uma vantagem absoluta maior que a diferença nacional final de 2,22 milhões.
Em outras palavras: sem a expressiva diferença paulista, a fotografia nacional seria radicalmente diferente.
O FATOR TARCÍSIO
Há outro dado importante, embora seja necessário evitar uma comparação eleitoral tecnicamente incorreta.
Tarcísio de Freitas (Republicanos) não disputou votos contra Lula. Ele concorreu ao governo de São Paulo contra Fernando Haddad, do PT.
Com 100% das urnas, Tarcísio foi reeleito no primeiro turno com 62,65% e 14.491.874 votos. Haddad recebeu 36,42% e 8.423.656 votos.
A vantagem de Tarcísio chegou, portanto, a 26,23 pontos percentuais e aproximadamente 6,07 milhões de votos.
O resultado não permite afirmar que os 14,49 milhões de eleitores de Tarcísio sejam automaticamente eleitores de Flávio. São cargos, campanhas e escolhas diferentes.
Mas o cruzamento agregado das urnas revela algo politicamente relevante: o eleitorado paulista produziu, no mesmo domingo, duas vitórias expressivas contra candidatos do PT.
Tarcísio venceu Haddad por mais de seis milhões de votos. Flávio venceu Lula por 3,4 milhões. Há, portanto, um ambiente eleitoral paulista fortemente desfavorável ao PT que poderá ser mobilizado no segundo turno.
A capacidade de Tarcísio de transferir prestígio político, estrutura e mobilização para a campanha presidencial passa a ser um dos ativos mais importantes de Flávio nos próximos 20 dias.
O NORDESTE É O GRANDE CONTRAPESO DE LULA
Se São Paulo foi decisivo para Flávio, o Nordeste foi fundamental para impedir uma vantagem nacional muito maior.
Lula venceu nos nove estados nordestinos.
Somados, recebeu aproximadamente 21,24 milhões de votos na região, contra 12,92 milhões de Flávio.
Isso representa uma vantagem regional de cerca de 8,33 milhões de votos para Lula.
A Bahia foi especialmente importante: Lula alcançou 66,17%, contra 28,53% de Flávio. No Piauí, a diferença foi ainda maior proporcionalmente: 70,99% contra 24,09%.
Em Pernambuco, Lula teve 63,45%; no Ceará, 63,29%; no Maranhão, 63,99%; e na Paraíba, 61,31%.
O Nordeste permanece, portanto, como a principal muralha eleitoral do lulismo.
SÃO PAULO E SUL CONTRA O PESO DO NORDESTE
O cruzamento feito pelo IGU News entre as totalizações revela talvez o dado mais interessante da eleição.
A vantagem de Flávio em São Paulo foi de aproximadamente 3,42 milhões de votos.
Nos três estados do Sul, somados, Flávio abriu outros 5,04 milhões de votos sobre Lula.
São Paulo e Sul, juntos, produziram vantagem de cerca de 8,46 milhões de votos para Flávio.
O Nordeste, por sua vez, produziu aproximadamente 8,33 milhões de votos de vantagem para Lula.
Ou seja: somente São Paulo e os três estados do Sul praticamente anularam toda a vantagem construída por Lula nos nove estados nordestinos.
Pelos números apurados, restou uma diferença aproximada de apenas 133 mil votos entre esses dois grandes blocos territoriais — favorável a Flávio.
O restante do país completou a diferença nacional de 2,22 milhões.
O SUL PRODUZIU UMA ONDA À DIREITA
O comportamento da Região Sul foi particularmente homogêneo.
No Paraná, Flávio alcançou 59,91%, enquanto Lula obteve 31,20%. Foram aproximadamente 3,95 milhões contra 2,05 milhões de votos.
Em Santa Catarina, Flávio chegou a 66,65%, com 3.000.020 votos, contra 25,04% e 1.127.168 votos de Lula.
No Rio Grande do Sul, Flávio obteve 55,64% e 3.573.783 votos. Lula ficou com 35,73% e 2.294.759.
Mas o fenômeno não ficou limitado à Presidência.
Os três governadores eleitos no Sul pertencem ao PL.
Sergio Moro venceu no Paraná no primeiro turno com 50,10% e 3.127.911 votos.
Jorginho Mello foi reeleito em Santa Catarina com 68,98% e 2.942.386 votos.
Luciano Zucco venceu no Rio Grande do Sul com 58,05% e 3.516.048 votos.
AS SEIS VAGAS DO SENADO NO SUL
O fenômeno se reproduziu integralmente nas seis vagas ao Senado disputadas nos três estados.
No Paraná, foram eleitos Filipe Barros (PL), com 27,25% e 3.148.583 votos, e Deltan Dallagnol (Novo), com 25,14% e 2.904.594. A situação jurídica da candidatura de Dallagnol ainda merece acompanhamento no TSE.
Em Santa Catarina, Carol de Toni (PL) obteve 33,46% e 2.694.918 votos, enquanto Carlos Bolsonaro (PL) recebeu 25,35% e 2.041.840.
No Rio Grande do Sul, Sanderson (PL) teve 30,11% e 3.453.316 votos; Marcel van Hattem (Novo), 30,08% e 3.449.053.
Assim, considerados PL e Novo como partidos situados à direita no espectro político brasileiro, as seis cadeiras senatoriais renovadas pela Região Sul foram conquistadas por candidaturas desse campo.
FLÁVIO TAMBÉM VENCEU NOS TRÊS MAIORES COLÉGIOS
A vantagem não ficou restrita a São Paulo e ao Sul.
Nos três maiores colégios eleitorais do país — São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro — Flávio terminou em primeiro.
Em Minas, foram 48,25% e 5.772.088 votos, contra 43,31% e 5.181.628 de Lula.
No Rio, Flávio alcançou 53,01% e 4.966.844 votos, contra 39,41% e 3.693.021 do petista.
Somadas somente as vantagens obtidas em São Paulo, Minas e Rio, Flávio abriu aproximadamente 5,28 milhões de votos sobre Lula.
É um dado de especial importância porque esses estados concentram enorme parcela do eleitorado brasileiro.
O CONGRESSO REFORÇA A LEITURA DA URNA
A eleição parlamentar também produziu um sinal político convergente.
O PL elegeu 121 deputados federais e terá a maior bancada da Câmara a partir de fevereiro de 2027. A própria Câmara registra crescimento expressivo da legenda em relação à eleição anterior.
No Senado, o PL elegeu 19 das 54 vagas disputadas e deverá começar 2027 com 28 dos 81 senadores, a maior bancada partidária no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988.
Isso não significa que a direita detenha automaticamente maioria para qualquer votação. Tampouco todos os partidos de centro e centro-direita votam como bloco único.
Mas o fato objetivo é que o partido de Flávio emerge da eleição como a maior força partidária tanto da Câmara quanto do Senado.
O resultado presidencial, portanto, não ocorreu isoladamente. Ele esteve inserido numa eleição que ampliou institucionalmente o peso do PL.
UMA INVERSÃO EM RELAÇÃO A 2022
Há ainda uma mudança simbólica de direção.
Em 2022, Lula terminou o primeiro turno aproximadamente 6,1 milhões de votos à frente de Jair Bolsonaro.
Quatro anos depois, Flávio termina 2,22 milhões à frente de Lula.
Considerando apenas a diferença entre os dois polos, houve uma inversão de mais de 8 milhões de votos na margem relativa.
Além disso, levantamentos sobre o mapa municipal mostram que Flávio conquistou centenas de municípios que haviam dado maioria a Lula em 2022.
A MATEMÁTICA DO SEGUNDO TURNO
Há 9.316.747 votos, ou 7,81% dos válidos, que foram destinados aos outros dez candidatos.
Em uma conta puramente estática — supondo o mesmo comparecimento, nenhum deslocamento entre Flávio e Lula e apenas a redistribuição desses votos — Lula precisaria conquistar cerca de 62% desse contingente para superar os 2,22 milhões de vantagem de Flávio.
Flávio precisaria de aproximadamente 38% para conservar a liderança.
Essa conta não é uma previsão eleitoral. Segundo turno não funciona de maneira estática: há abstenção, novos comparecimentos, migração direta entre os finalistas, campanha negativa, apoios e acontecimentos políticos.
Ainda assim, ela mostra por que Flávio inicia a segunda etapa numa posição matemática objetivamente melhor.
Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, candidatos associados em diferentes graus ao campo de centro-direita e direita, reuniram juntos aproximadamente 5,61 milhões de votos.
Não é correto presumir transferência automática. Mas esse eleitorado será um dos terrenos decisivos da campanha.
É POSSÍVEL UMA VITÓRIA MAIS AMPLA DE FLÁVIO?
Os números permitem considerar essa hipótese plausível.
Flávio chega ao segundo turno liderando a votação nacional, vence em grandes colégios eleitorais, domina o Sul, tem ampla vantagem em São Paulo e vê seu partido sair fortalecido simultaneamente nas duas Casas do Congresso.
Há, portanto, uma combinação territorial, partidária e parlamentar que pode oferecer a ele espaço para ampliar a margem.
Mas não há base técnica para tratar essa ampliação como inevitável.
Lula continua sustentado por uma vantagem superior a oito milhões de votos no Nordeste, possui uma base eleitoral nacional de quase 54 milhões de votos e disputará agora uma eleição binária, sem os dez candidatos que fragmentaram 7,81% dos votos válidos.
O primeiro turno indica vantagem de partida para Flávio. O segundo decidirá se essa vantagem representa o início de uma maioria presidencial ou apenas uma fotografia de 4 de outubro.
DEMAIS CANDIDATOS SOMAM 7,81% DOS VOTOS
Fora de Flávio Bolsonaro e Lula, dez candidaturas reuniram 9,31 milhões de votos válidos no primeiro turno.
Augusto Cury (Avante) ficou em 3º, com 3.448.569 votos (2,89%); Renan Santos (Missão), 2.675.887 (2,24%); Ronaldo Caiado (PSD), 2.605.148 (2,18%); e Zema (Novo), 326.488 (0,27%). Samara Martins (UP) teve 122.911 (0,10%); Hertz Dias (PSTU), 43.103 (0,04%); Clariana Barão (DC), 40.043 (0,03%); Edmilson Costa (PCB), 22.693 (0,02%); Wilson Grassi (Democrata), 16.881 (0,01%); e Rui Costa Pimenta (PCO), 15.024 (0,01%).
OBSERVAÇÃO EDITORIAL
Esta é uma matéria de opinião e análise eleitoral do IGU News, produzida a partir de resultados oficiais da Justiça Eleitoral, dados públicos e levantamentos jornalísticos confrontados pela redação.
A avaliação sobre possíveis tendências do segundo turno constitui interpretação dos números, e não pesquisa de intenção de voto, enquete, sondagem popular ou previsão de resultado. Os votos do primeiro turno não implicam transferência automática entre candidaturas.
(Da Redação do IGU News)




