Manchete 2

QUEM GANHA E QUEM PERDE? LULA TENTA SE AFASTAR DE MORAES E FLÁVIO TENTA COLAR O CRISE AO GOVERNO

Após sessão histórica do Supremo terminar sem decisão sobre eventual investigação de Alexandre de Moraes, Lula endurece o discurso e tenta separar sua candidatura da crise, enquanto Flávio Bolsonaro transforma o episódio em arma eleitoral. O problema para o candidato do PL é que ele próprio está formalmente sob investigação no caso Dark Horse, também ligado a Daniel Vorcaro.

A crise sem precedentes que atinge o Supremo Tribunal Federal entrou definitivamente na campanha presidencial e abriu uma disputa paralela entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro: qual dos dois conseguirá transferir ao adversário o maior desgaste político produzido pelo caso Banco Master?

A pergunta ganhou ainda mais força depois da tumultuada sessão extraordinária do STF desta terça-feira (15), encerrada sem que o plenário chegasse sequer ao mérito sobre a abertura de investigação envolvendo Alexandre de Moraes.

O pedido de vista de Flávio Dino suspendeu a discussão quando o placar provisório estava em 4 a 3 contra a reunião dos casos de Moraes e André Mendonça. Dino havia se manifestado favoravelmente à análise conjunta, mas solicitou que sua posição ainda não fosse computada. O mérito sobre eventual investigação contra Moraes, portanto, permanece sem decisão.

A consequência política é imediata: a crise continua aberta justamente nas semanas finais da campanha presidencial.

E Lula e Flávio Bolsonaro escolheram estratégias opostas para enfrentá-la.

LULA MUDA O TOM E COBRA EXPLICAÇÕES DO SUPREMO

Lula vinha sendo pressionado por aliados para aumentar a distância política em relação a Alexandre de Moraes.

Na terça-feira, durante entrevista à Record, o presidente endureceu sua posição. Afirmou que eventuais irregularidades precisam ser apuradas, que quem tiver cometido ilegalidades deve responder e que a Suprema Corte precisa preservar sua credibilidade perante a sociedade.

Ao mesmo tempo, Lula dirigiu críticas também a André Mendonça e questionou a divulgação seletiva de informações das investigações.

A movimentação foi interpretada dentro da própria campanha governista como tentativa de retirar Lula da condição de defensor automático de Moraes e colocá-lo na posição institucional de presidente que exige esclarecimentos de todos os envolvidos. A Folha registrou que o Planalto procura explicitamente reduzir a associação entre Lula e a crise de imagem do ministro.

O problema é que essa separação política não é simples.

A PROXIMIDADE COM MORAES VIROU PASSIVO ELEITORAL

Ao longo dos últimos anos, Lula e seus principais aliados defenderam reiteradamente a atuação institucional do STF e de Moraes, especialmente nos processos relacionados aos atos de 8 de janeiro e às investigações sobre Jair Bolsonaro.

Esse histórico permitiu que a campanha de Flávio Bolsonaro construísse uma narrativa eleitoral segundo a qual Lula e Moraes integrariam um mesmo campo político.

Essa é uma interpretação da campanha adversária, e não prova de participação de Lula nos fatos atualmente investigados.

Mas eleitoralmente a associação existe — e passou a ser explorada intensamente.

Segundo relato da Coluna do Estadão encaminhado ao IGU News, dirigentes da campanha de Lula reuniram-se para avaliar o impacto da crise e teriam recebido monitoramento digital indicando forte predominância de reações negativas nas menções combinando Moraes, Vorcaro e Banco Master. A coluna afirma ainda que integrantes da campanha avaliavam que o tema Moraes estava produzindo mais desgaste digital ao presidente do que outras controvérsias envolvendo seu governo ou sua família.

Trata-se de avaliação interna relatada pela publicação, não de medição eleitoral capaz de demonstrar transferência automática de votos.

FLÁVIO LEVA A CRISE PARA O HORÁRIO ELEITORAL

Flávio Bolsonaro decidiu explorar exatamente essa vulnerabilidade.

Na terça-feira, o candidato levou ao horário eleitoral uma peça com formato de pronunciamento e afirmou estar interrompendo momentaneamente o discurso convencional de campanha em razão da gravidade da crise institucional.

O vídeo associa Lula diretamente a Moraes e responsabiliza politicamente o governo pelo desequilíbrio entre os Poderes.

A estratégia já vinha sendo utilizada antes mesmo da sessão do Supremo. A Folha registrou que Flávio procura transformar a crise envolvendo Moraes em um problema de Lula, enquanto evita abordar no mesmo pronunciamento sua própria relação com Daniel Vorcaro.

Para o PL, o objetivo é simples: fazer da eleição uma escolha não apenas entre Lula e Flávio, mas também entre continuidade ou ruptura com a atual relação política entre Executivo e Supremo.

MAS VORCARO TAMBÉM LEVA DIRETAMENTE A FLÁVIO

É justamente aqui que a estratégia encontra seu maior obstáculo.

Flávio Bolsonaro é formalmente investigado em um desdobramento relacionado ao Banco Master.

André Mendonça determinou a abertura de inquérito para apurar a participação do senador no financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Segundo a Agência Brasil, a investigação trata de aproximadamente R$ 61 milhões que teriam sido disponibilizados por Daniel Vorcaro para financiar a produção após solicitação atribuída a Flávio. O candidato nega irregularidades.

Documentos divulgados posteriormente pela Polícia Federal apontaram Flávio como interlocutor direto de Vorcaro nas negociações relacionadas ao projeto.

Reportagem da revista Piauí, repercutida pela Folha, indicou ainda um aporte adicional de aproximadamente US$ 1,6 milhão — R$ 8,5 milhões na cotação da época — ao fundo relacionado ao filme.

Isso impede que a crise seja eleitoralmente unilateral.

A DISPUTA É PARA SABER QUEM CONSEGUE IMPOR A NARRATIVA

Lula procura dizer ao eleitor:

Moraes deve responder por seus próprios atos, o Supremo precisa investigar seus integrantes e Flávio também possui vínculos sob investigação com Vorcaro.

Flávio procura apresentar outra leitura:

Moraes seria símbolo de um sistema politicamente próximo ao governo Lula e a crise do STF demonstraria a necessidade de mudança no Executivo.

Nenhuma dessas narrativas substitui as investigações ou transforma suspeitas em fatos comprovados.

Mas ambas são eleitoralmente importantes.

A questão central passa a ser qual delas encontrará maior aderência entre eleitores que ainda podem mudar de posição.

PESQUISAS MOSTRAM ELEIÇÃO ABERTA

Os levantamentos mais recentes mostram justamente por que poucos pontos podem ser decisivos.

A Quaest divulgada em 14 de setembro colocou Flávio Bolsonaro com 42% e Lula com 40% numa simulação de segundo turno. Foi a primeira vez que o senador apareceu numericamente à frente do presidente nesse levantamento.

Mas os dois continuam tecnicamente empatados, porque a margem de erro é de dois pontos percentuais. O campo foi realizado entre os dias 10 e 13 de setembro, portanto antes da sessão do STF de terça-feira.

No primeiro turno da mesma Quaest, Lula aparece com 36% e Flávio com 31%. Augusto Cury registra 7%, Renan Santos e Ronaldo Caiado têm 4% cada.

Outros institutos mostram diferenças.

Levantamentos reunidos em 14 de setembro apontavam Lula e Flávio tecnicamente empatados em praticamente todos os principais cenários, mas alternavam quem aparecia numericamente à frente dependendo da metodologia: Quaest, Palver e alguns outros levantamentos davam pequena vantagem numérica a Flávio; BTG/Nexus indicava Lula numericamente à frente; Meio/Ideia registrava empate.

Isso significa que não há base técnica para afirmar hoje que um dos dois esteja eleitoralmente consolidado à frente do outro.

AINDA NÃO SABEMOS O EFEITO DA SESSÃO DO STF

Há uma cautela metodológica indispensável.

As principais pesquisas nacionais disponíveis tiveram seus trabalhos de campo concluídos antes da sessão do Supremo de 15 de setembro.

Portanto, elas não mediram integralmente:

a suspensão provocada pelo pedido de vista de Flávio Dino;

o confronto público entre ministros;

a ausência de decisão sobre investigação de Moraes;

o novo discurso de Lula cobrando explicações do STF;

nem a ofensiva eleitoral de Flávio transformando a sessão em tema de campanha.

A próxima rodada de pesquisas terá, por isso, importância especial.

Ela poderá indicar se esses acontecimentos efetivamente movimentaram votos ou apenas reforçaram opiniões previamente consolidadas.

A CRISE NÃO NECESSARIAMENTE MUDA O VOTO DA MAIORIA

Há também evidências de que grandes escândalos políticos nem sempre provocam deslocamentos eleitorais proporcionais à repercussão jornalística.

Análise publicada nesta quarta-feira observa que levantamento do Datafolha indicou grande estabilidade das escolhas: 85% afirmaram não ter mudado de candidato, enquanto apenas uma pequena parcela declarou mudança recente de voto.

Em uma eleição aberta, contudo, poucos pontos podem ser suficientes.

Por isso, mesmo movimentos pequenos entre indecisos, eleitores de candidatos menores ou pessoas com baixa convicção podem ter consequência relevante.

LULA TEM UM PROBLEMA ADICIONAL: A AVALIAÇÃO DO GOVERNO

A crise do STF não ocorre isoladamente.

O Datafolha realizado entre 8 e 10 de setembro apontou 42% avaliando o governo Lula como ruim ou péssimo, 32% como ótimo ou bom e 25% como regular.

A desaprovação pessoal era de 50%, diante de 47% de aprovação.

Para um presidente candidato à reeleição, avaliação governamental constitui variável estrutural.

Isso significa que qualquer desgaste adicional provocado pela associação com Moraes ocorre sobre uma base eleitoral que já apresenta dificuldades.

FLÁVIO TEM SEU PRÓPRIO TETO: DARK HORSE

O senador, porém, também enfrenta uma vulnerabilidade que pode crescer na reta final.

O inquérito Dark Horse coloca diretamente seu nome dentro do universo Banco Master.

A investigação menciona suspeitas relacionadas ao financiamento do filme e apura possíveis crimes; Flávio nega irregularidades e tem direito ao contraditório e à ampla defesa.

Por isso, sempre que a campanha do PL utiliza Vorcaro para atingir Lula por meio de Moraes, abre espaço para que a campanha petista devolva a associação por meio do financiamento da produção cinematográfica.

Essa característica diferencia a crise atual de um escândalo eleitoral convencional.

O mesmo personagem — Daniel Vorcaro — aparece em frentes capazes de gerar desgaste para os dois principais candidatos.

O ADIAMENTO PODE MANTER O TEMA VIVO

Politicamente, o pedido de vista de Dino não encerrou o problema.

Fez o contrário: adiou a solução e manteve a crise no noticiário.

O ministro pode ficar com os autos por até 90 dias, embora possa devolvê-los antes.

Enquanto isso, permanece indefinido se o Supremo abrirá investigação contra Moraes e se os processos envolvendo ele e André Mendonça serão julgados conjuntamente.

Uma coluna do Estadão interpreta essa prolongação como um problema para Lula justamente porque dificulta que a campanha substitua a pauta por temas de economia e governo.

Já a campanha de Flávio trata a continuidade da crise como oportunidade para manter Moraes no centro da disputa.

São estratégias políticas dos dois campos — não uma conclusão sobre o efeito eleitoral real.

FLÁVIO TAMBÉM CORRE RISCO DE EXAGERAR NA DOSE

Transformar a crise do STF no eixo dominante da campanha possui riscos para o candidato do PL.

A própria equipe de Flávio demonstra divergências sobre até onde intensificar os ataques a Moraes.

Segundo relato publicado nesta quarta-feira, parte dos estrategistas considera útil aprofundar a pressão, enquanto outra ala teme que a campanha pareça excessivamente centrada numa disputa pessoal ou institucional e deixe em segundo plano problemas cotidianos do eleitor.

Por isso, a estratégia anunciada combina STF com inflação, custo de vida, segurança pública e temas voltados ao eleitorado feminino.

LULA TAMBÉM TENTA MUDAR A AGENDA

A reação governista segue lógica semelhante.

O presidente procura assumir discurso de transparência institucional sem transformar a defesa de Moraes em bandeira eleitoral.

Ao mesmo tempo, a campanha tenta recuperar terreno nas redes.

Dados produzidos pela própria equipe de comunicação de Lula, portanto com origem partidária e que precisam ser lidos como tal, apontam aumento recente das interações nos perfis do presidente e do PT.

A estratégia é evitar que a discussão sobre STF e Banco Master monopolize as semanas finais.

ENTÃO, QUEM GANHA E QUEM PERDE?

Os fatos disponíveis permitem identificar riscos e oportunidades para os dois lados, mas ainda não permitem estabelecer um vencedor eleitoral dessa crise.

Para Lula, o risco está na tentativa do adversário de colar sua imagem à de Moraes em momento de avaliação governamental negativa. O adiamento no STF prolonga uma pauta que sua campanha preferiria substituir por economia, programas sociais e propostas para um novo mandato.

Sua oportunidade está em defender investigação irrestrita e utilizar o próprio caso Dark Horse para demonstrar que o adversário também possui explicações a prestar.

Para Flávio Bolsonaro, a oportunidade está em explorar uma crise institucional que atinge uma figura — Moraes — fortemente rejeitada por sua base eleitoral e tentar convertê-la em argumento contra o governo.

Seu risco é evidente: Daniel Vorcaro também conduz ao próprio Flávio, formalmente investigado por fatos relacionados ao financiamento de Dark Horse.

As pesquisas mostram uma disputa suficientemente apertada para que movimentos pequenos possam importar.

Mas como os principais levantamentos foram concluídos antes da sessão de terça-feira, a primeira resposta empiricamente verificável sobre quem sofreu maior desgaste ainda depende das próximas rodadas de pesquisas.

Até lá, há uma certeza factual:

Lula e Flávio disputam não apenas votos, mas também quem conseguirá convencer o eleitor de que a crise pertence mais ao adversário do que a si próprio.

E essa batalha de narrativa pode se tornar um dos temas centrais das semanas finais da eleição presidencial.

(Da Redação do IGU News)

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