QUEM QUER GOVERNAR O PARANÁ NÃO DEVERIA FUGIR DO DEBATE
Sergio Moro lidera as pesquisas para o Governo do Paraná, mas decidiu abandonar, poucas horas antes, o primeiro grande debate televisionado da eleição. A justificativa de que haveria uma “rinha de galo” e um “jogo combinado” entre adversários não elimina uma questão elementar: quem pretende comandar um Estado de quase 12 milhões de habitantes precisa se submeter ao contraditório, responder perguntas difíceis e enfrentar seus concorrentes diante do eleitor.
A decisão de Sergio Moro de não participar do primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Paraná, promovido pela Band no domingo, 9 de agosto, merece crítica. Não porque exista obrigação legal de comparecer a todos os encontros organizados pela imprensa, mas porque o debate eleitoral representa uma das raras oportunidades em que o candidato não controla integralmente o ambiente, as perguntas, o tempo e os interlocutores. Horas antes da transmissão, Moro anunciou que não compareceria, embora a própria Band ainda o apresentasse naquela manhã como um dos participantes confirmados ao lado de Requião Filho e Sandro Alex.
O senador justificou sua ausência afirmando que os adversários teriam combinado ataques contra ele e que os debates haviam se transformado em uma “rinha de galo”, com confrontos em lugar de propostas. Também disse que se recusava a participar de um “jogo combinado” envolvendo PT e PSD. É direito do candidato fazer essa avaliação e escolher sua estratégia eleitoral. Mas é justamente aí que surge a contradição: se há ataques, acusações ou distorções, o debate é precisamente o lugar em que o candidato pode responder diretamente, contestá-los e apresentar sua própria versão ao eleitor.
Moro não é um candidato marginal tentando conquistar visibilidade. Ele chega à campanha como líder das pesquisas. Na Quaest divulgada em 27 de julho, aparecia com 39% das intenções de voto no principal cenário estimulado, contra 18% de Requião Filho. Em simulações de segundo turno, registrava 48% contra 29% de Requião e 50% contra 18% de Sandro Alex. Quanto maior a possibilidade de vitória, maior deveria ser — politicamente, não juridicamente — a disposição para prestar contas e expor projetos ao confronto público.
A ausência também não pode ser explicada simplesmente pela alegação de que a campanha eleitoral oficial só começa em 16 de agosto. De fato, a propaganda eleitoral passa a ser permitida a partir dessa data. Mas a legislação eleitoral admite entrevistas, encontros e debates com pré-candidatos, desde que respeitadas as regras aplicáveis e o tratamento previsto pela Justiça Eleitoral. O próprio TSE esclareceu anteriormente que pré-candidatos podem participar de entrevistas, programas, encontros e debates em rádio, televisão e internet. Portanto, a data do debate não tornava sua participação juridicamente imprópria.
Há outro aspecto que enfraquece o argumento de rejeição ao ambiente jornalístico. Apenas dois dias antes, em 7 de agosto, Moro participou de uma sabatina promovida pela Folha de S.Paulo e pelo UOL, na qual apresentou propostas e respondeu a questionamentos sobre sua candidatura. A diferença fundamental é que uma sabatina permite diálogo predominantemente entre candidato e jornalistas; um debate coloca o postulante diante dos próprios adversários.
E é justamente essa diferença que importa.
Governar o Paraná significará enfrentar oposição na Assembleia Legislativa, prefeitos descontentes, movimentos sociais, categorias profissionais, empresários, sindicatos, imprensa crítica e crises inesperadas. Um governador não poderá escolher apenas interlocutores confortáveis nem abandonar discussões porque considera que seus adversários estão agindo em bloco.
Moro afirma ter enfrentado corrupção e crime organizado durante sua trajetória pública. Essa experiência integra legitimamente sua biografia política. Mas a coragem exigida em uma eleição democrática é de outra natureza: é aceitar perguntas inconvenientes, ouvir acusações que considera injustas e responder diante de milhões de eleitores sem controlar o roteiro.
Requião Filho e Sandro Alex aproveitaram a ausência para atacá-lo. Houve expressões duras e politicamente interessadas, como “fujão” e “covarde”. O IGU News não precisa adotar esse vocabulário para reconhecer o problema. A crítica pode ser feita sem adjetivação: a cadeira vazia foi uma oportunidade perdida pelo candidato e, principalmente, pelo eleitor paranaense.
É verdade que debates eleitorais frequentemente degeneram em provocações, slogans e ataques pessoais. O encontro realizado sem Moro também teve confrontos intensos entre Requião Filho e Sandro Alex. Mas isso não invalida o instrumento. Durante o programa foram discutidos educação, Copel, escolas cívico-militares, impostos e outros temas diretamente relacionados ao governo estadual.
O candidato que considera o nível do debate ruim deveria elevá-lo.
O candidato que considera as perguntas injustas deveria respondê-las.
O candidato que acredita estar sendo atacado conjuntamente deveria aproveitar a transmissão para demonstrar isso ao público.
Ausentar-se transfere aos adversários o microfone, impede o confronto de propostas e priva o eleitor de comparar respostas em condições semelhantes.
A democracia não exige que candidatos participem de todos os debates. Mas deveria causar desconforto quando justamente aquele que aparece na liderança decide evitar o primeiro grande confronto televisionado da campanha. Favoritismo eleitoral não pode produzir uma espécie de imunidade ao contraditório.
Quem está atrás nas pesquisas precisa convencer o eleitor.
Quem está na frente também.
Sergio Moro terá outras oportunidades para participar de debates ao longo da campanha. Espera-se que compareça. Não para satisfazer emissoras ou adversários, mas porque o cargo que pretende ocupar pertence, em última instância, aos paranaenses.
Quem pede ao eleitor autorização para governar o Paraná por quatro anos deve estar disposto a lhe conceder algumas horas de explicações frente a frente com quem pensa diferente.
Debate não é favor ao adversário. É respeito ao eleitor.
(Da Redação do IGU News)




