Boca Maldita

Opinião: BETS, O BRASIL PRECISA PROIBIR A PROPAGANDA ANTES QUE O VÍCIO VENÇA UMA GERAÇÃO

É hora de o Congresso Nacional aprovar uma legislação federal que proíba integralmente a publicidade de apostas esportivas e jogos de azar, colocando a saúde pública acima dos interesses econômicos.

Por José Reis*

O Brasil vive uma epidemia silenciosa. Ela não se espalha pelas ruas na forma de fumaça, nem possui odor característico. Ela invade celulares, televisores, rádios, computadores, transmissões esportivas, redes sociais e plataformas de streaming. Está presente vinte e quatro horas por dia, associada ao entretenimento, ao esporte, ao sucesso financeiro e ao sonho do enriquecimento rápido. Essa epidemia atende pelo nome de ludopatia, o transtorno do jogo.

A Copa do Mundo apenas tornou visível aquilo que já havia tomado conta da comunicação brasileira. Durante praticamente toda a transmissão esportiva, o telespectador é bombardeado por marcas de apostas. Elas aparecem nos intervalos comerciais, nas placas dos estádios, nas entrevistas, nos programas esportivos, nos podcasts, nas redes sociais, nos aplicativos, nos uniformes das equipes e até mesmo nos comentários de influenciadores digitais.

Nunca houve, na história recente do Brasil, uma campanha publicitária tão massiva em favor de um produto potencialmente capaz de produzir dependência.

O problema não está apenas na existência das apostas legalizadas. O problema está na promoção incessante de uma atividade que a própria ciência já reconhece como capaz de produzir doença.

A Associação Psiquiátrica Americana, por meio do DSM-5, classifica o transtorno do jogo entre os transtornos relacionados às dependências. A Organização Mundial da Saúde também reconhece oficialmente a ludopatia na CID-11 como doença mental específica. Não se trata de opinião, moralismo ou preconceito. Trata-se de consenso científico internacional.

O cérebro do jogador compulsivo apresenta alterações semelhantes às observadas em pessoas dependentes de álcool, nicotina e outras drogas. O mecanismo cerebral da recompensa, da compulsão, da abstinência e da perda progressiva do controle é amplamente documentado pela literatura médica.

As consequências extrapolam o aspecto financeiro.

Famílias se desestruturam. Patrimônios desaparecem. Casamentos terminam. Jovens abandonam estudos. Trabalhadores comprometem salários inteiros. Crescem os casos de ansiedade, depressão, insônia e comportamento suicida associados ao vício em apostas.

Enquanto isso, a publicidade continua tratando as apostas como se fossem apenas uma forma inocente de diversão.

Mais preocupante ainda é a utilização maciça de celebridades para conferir legitimidade ao setor. Artistas, atletas, ex-jogadores, influenciadores digitais, apresentadores, narradores e outras personalidades de enorme alcance transformaram-se em verdadeiros embaixadores das plataformas de apostas.

Muitos deles foram — e continuam sendo — referências para crianças, adolescentes e gerações inteiras de brasileiros.

Quando um ídolo empresta sua imagem a determinado produto, ele vende muito mais do que uma marca. Ele transmite credibilidade, confiança e comportamento socialmente aceitável.

Foi exatamente essa lógica que, durante décadas, sustentou a publicidade do cigarro.

Na época, médicos, artistas e grandes esportistas apareciam nos anúncios, contribuindo para criar a falsa percepção de que fumar era elegante, moderno e até saudável. Somente quando os efeitos devastadores do tabagismo tornaram-se incontestáveis o Brasil decidiu restringir severamente essa publicidade, medida hoje considerada uma das mais importantes políticas públicas de saúde do país.

Nesse contexto, vale recordar um exemplo que permanece atual.

Edson Arantes do Nascimento, o eterno Pelé, tornou-se garoto-propaganda de inúmeras empresas ao longo de sua carreira. Entretanto, recusou propostas milionárias para associar sua imagem a bebidas alcoólicas e ao cigarro, justamente por entender a responsabilidade que carregava perante milhões de jovens que o tinham como referência. Sua decisão permanece como exemplo raro de coerência entre sucesso comercial e responsabilidade social.

Hoje, infelizmente, observa-se movimento inverso.

Celebridades disputam contratos para estimular uma atividade cujo potencial de dependência já não pode mais ser ignorado. Quanto maior o alcance da personalidade, maior costuma ser o impacto sobre públicos vulneráveis, especialmente adolescentes e jovens adultos.

Não é razoável que um país proíba a publicidade de cigarros em nome da saúde coletiva, imponha severas restrições à propaganda de produtos derivados do tabaco, mas permita que empresas de apostas ocupem praticamente todos os espaços publicitários disponíveis no esporte e nos meios de comunicação.

A comparação é inevitável.

Ambos os setores exploram mecanismos semelhantes de publicidade emocional. Ambos utilizam figuras públicas para gerar identificação. Ambos transformam comportamentos potencialmente nocivos em produtos desejáveis.

A diferença é que aprendemos, com o tabaco, a agir antes que fosse tarde demais.

Chegou o momento de aplicar o mesmo princípio às apostas esportivas e aos jogos de azar.

Não se discute aqui a liberdade individual do adulto de apostar.

Discute-se o direito da sociedade de não ser permanentemente induzida ao consumo de uma atividade que pode evoluir para dependência reconhecida pela medicina.

Urge que o Congresso Nacional aprove uma legislação federal proibindo integralmente a publicidade comercial de empresas de apostas e jogos de azar em televisão, rádio, internet, plataformas digitais, redes sociais, transmissões esportivas, patrocínios esportivos, uniformes, eventos e quaisquer outros meios de comunicação de massa, à semelhança do modelo adotado para a publicidade de cigarros.

A liberdade econômica jamais pode prevalecer sobre a proteção da infância, da juventude, da família e da saúde pública.

A história demonstra que grandes interesses econômicos frequentemente resistem às mudanças. Também demonstra que sociedades maduras colocam a vida acima do lucro.

O Brasil ainda pode evitar que uma geração inteira seja educada sob a falsa promessa de que riqueza depende da próxima aposta.

A prevenção continua sendo o investimento público mais inteligente, mais barato e mais humano que uma nação pode fazer.

(*José Reis é jornalista, MTBE 8743/PR)

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