VITÓRIA DE LULA PROVOCA FORTE REAÇÃO NEGATIVA NOS MERCADOS INTERNACIONAIS E ACENDE ALERTA SOBRE A ECONOMIA BRASILEIRA
Ativos brasileiros negociados em Nova York e Tóquio registram quedas expressivas após a reeleição presidencial. Fundo de ações recua mais de 18% nos Estados Unidos, enquanto ETF no Japão perde 11,8%. Investidores reavaliam expectativas sobre dívida pública, equilíbrio fiscal, juros e capacidade de negociação com o novo Congresso.
IGU NEWS | ECONOMIA E MERCADOS |
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) neste domingo, 25 de outubro, provocou uma reação negativa expressiva nos ativos brasileiros negociados nos mercados internacionais, antecipando um início de semana potencialmente marcado por elevada volatilidade na Bolsa de Valores, no câmbio e nos contratos de juros futuros.
Com a confirmação matemática da vitória presidencial, investidores passaram a revisar posições financeiras que, nas semanas anteriores, haviam incorporado expectativas de mudança na orientação econômica do governo federal.
O movimento tornou-se particularmente evidente nas negociações realizadas nos Estados Unidos e no Japão, onde instrumentos associados ao mercado brasileiro registraram perdas de dois dígitos.
Em Nova York, o iShares MSCI Brazil ETF (EWZ), fundo que acompanha uma carteira de ações brasileiras, chegou a registrar desvalorização superior a 19% durante as negociações posteriores ao expediente regular.
Por volta das 21h, o ativo apresentava queda de aproximadamente 18,29%, cotado a US$ 34,80, com oscilações relevantes nos minutos seguintes.
Na Bolsa de Tóquio, o Next Funds Ibovespa Linked, fundo de índice associado ao mercado acionário brasileiro, recuava 11,80%, com a cota negociada a 288 ienes.
As variações indicam uma reavaliação imediata das expectativas de parte dos investidores internacionais, mas não representam, necessariamente, os preços que serão registrados na abertura da B3 nesta segunda-feira, 26 de outubro.
MERCADO HAVIA INCORPORADO EXPECTATIVAS DE MUDANÇA NA POLÍTICA ECONÔMICA
A reação financeira ocorre depois de um período de valorização de ativos brasileiros associado à disputa presidencial.
No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente de Lula, resultado que levou parte dos investidores a considerar uma possibilidade maior de mudança na condução da política fiscal.
Na semana posterior à votação, a Bolsa brasileira acumulou valorização aproximada de 8,8%, conforme o recorte de negociações utilizado por analistas do mercado.
O movimento refletiu expectativas sobre redução de despesas, reorganização das contas públicas e medidas favoráveis à recuperação da confiança dos investidores.
Entretanto, essas expectativas representavam hipóteses sobre políticas futuras, não compromissos já executados ou resultados econômicos comprovados.
Nas sessões seguintes, o fortalecimento eleitoral de Lula começou a provocar ajustes nas cotações.
Com a confirmação de sua vitória no segundo turno, os movimentos de reprecificação se intensificaram nos mercados que permaneceram operando.
EWZ PERDE QUASE UM QUINTO DO VALOR NAS NEGOCIAÇÕES NOTURNAS
O EWZ foi um dos instrumentos que apresentaram maior oscilação após o resultado presidencial.
Negociado nos Estados Unidos, o fundo oferece exposição a uma carteira de empresas brasileiras e constitui uma referência frequentemente acompanhada por investidores internacionais.
Na noite deste domingo, o ativo chegou a apresentar perdas superiores a 19%, embora as cotações variassem conforme o horário de observação.
Às 21h16, a cotação informada era de US$ 34,69, representando queda de 18,53%.
Em outra atualização, próxima das 21h42, o fundo era negociado a US$ 35,03, com desvalorização de 17,75%.
A variação entre esses registros demonstra a intensidade e a velocidade das oscilações no período posterior ao resultado eleitoral.
É importante observar que as negociações realizadas fora do pregão regular podem apresentar menor liquidez, diferenças entre ofertas de compra e venda e oscilações mais acentuadas.
Por essa razão, uma queda observada no mercado noturno não deve ser automaticamente interpretada como a desvalorização definitiva do conjunto das empresas brasileiras.
BOLSA DE TÓQUIO TAMBÉM REGISTRA QUEDA EXPRESSIVA
O impacto ultrapassou o mercado norte-americano.
No Japão, o Next Funds Ibovespa Linked apresentou desvalorização de aproximadamente 11,8%, com a cota negociada a 288 ienes.
O instrumento é utilizado para proporcionar exposição ao desempenho de ações brasileiras por meio do mercado financeiro japonês.
A queda indica que a revisão das expectativas sobre a economia brasileira também alcançou investidores em outras regiões.
Entretanto, as diferenças de horário, composição dos fundos, condições cambiais e metodologia de acompanhamento dos índices impedem comparar diretamente todos os percentuais como se representassem uma única medida de desvalorização.
Os resultados refletem instrumentos específicos e momentos diferentes de negociação.
Ainda assim, a direção predominante dos movimentos registrados no exterior foi negativa.
PETROBRAS, ITAÚ E OUTRAS EMPRESAS BRASILEIRAS TAMBÉM RECUAM
A pressão de venda atingiu recibos de ações de grandes empresas brasileiras negociados no mercado norte-americano.
Os chamados American Depositary Receipts (ADRs) permitem a negociação de títulos relacionados a empresas estrangeiras nos Estados Unidos.
Durante as operações noturnas, os ADRs da Petrobras chegaram a apresentar quedas superiores a 10%.
Os papéis associados às ações ordinárias registraram recuo de aproximadamente 11,96%, enquanto aqueles vinculados às preferenciais apresentaram perda próxima de 10,33% em uma das atualizações.
Os recibos do Itaú também chegaram a registrar queda superior a 13%.
A Vale apresentou recuo próximo de 4,2% no período observado.
Esses movimentos revelam diferenças entre os setores econômicos, uma vez que empresas de petróleo, mineração e instituições financeiras respondem a fatores próprios de preço, câmbio, juros e expectativas de resultados.
A queda dos ADRs, portanto, não pode ser interpretada exclusivamente como uma avaliação sobre a eleição presidencial.
PESQUISA COM 73 GESTORES JÁ INDICAVA EXPECTATIVA DE FORTE CORREÇÃO
Antes do segundo turno, um levantamento realizado pelo Citi com 73 gestores de fundos de ações e multimercados havia identificado expectativas de forte volatilidade em caso de reeleição de Lula.
Entre os participantes, 80% esperavam queda superior a 5% do Ibovespa caso o presidente conquistasse novo mandato.
Outros 7% projetavam retração entre 1% e 5%.
No mercado cambial, 63% dos entrevistados esperavam desvalorização superior a 5% do real diante da mesma hipótese eleitoral.
Outros 28% previam depreciação entre 2% e 5%.
A pesquisa também identificou expectativas de elevação dos juros futuros.
Os percentuais representam as respostas de um grupo de profissionais do mercado financeiro, não uma sondagem da população brasileira nem uma previsão estatística garantida do comportamento dos preços.
O levantamento demonstra, entretanto, que a possibilidade de uma reação negativa já estava presente nas avaliações de parte dos gestores antes da confirmação eleitoral.
CIRCUIT BREAKER ENTRA NO RADAR DA ABERTURA DA B3
A intensidade das perdas observadas no exterior levou analistas a discutir a possibilidade de acionamento do mecanismo de interrupção temporária das negociações, conhecido como circuit breaker.
Na B3, o primeiro estágio é acionado quando o Ibovespa apresenta desvalorização de 10% em relação ao fechamento do pregão anterior, provocando a suspensão das negociações por 30 minutos.
Caso a queda alcance 15% após a retomada, um segundo estágio prevê interrupção de uma hora.
Uma retração de 20%, depois dos estágios anteriores, pode levar a uma suspensão por período definido pela própria Bolsa.
O mecanismo foi criado para organizar o funcionamento do mercado em situações de volatilidade excepcional.
Entretanto, a possibilidade de acionamento não significa que ele efetivamente ocorrerá.
A variação dos contratos internacionais constitui uma referência para os investidores, mas a formação dos preços na B3 dependerá das ofertas, da liquidez e das condições existentes quando o mercado brasileiro iniciar suas operações.
DÓLAR E JUROS FUTUROS TAMBÉM PODERÃO SOFRER PRESSÃO
O mercado cambial apresentou sinais de tensão durante a noite.
Contratos associados ao real negociados no exterior registraram desvalorizações expressivas, com referências cambiais que chegaram a indicar dólar próximo de R$ 5,51.
A cotação derivada desses instrumentos, entretanto, não corresponde necessariamente ao preço do dólar comercial à vista no Brasil.
A taxa que será negociada no mercado doméstico dependerá das condições existentes na segunda-feira.
O mesmo princípio se aplica aos contratos de juros futuros.
A percepção de maior risco fiscal pode pressionar as taxas exigidas pelos investidores para financiar o setor público.
Juros mais elevados também influenciam o custo de financiamento de empresas, famílias e projetos de investimento.
A dimensão efetiva desses movimentos somente poderá ser medida após a abertura e o desenvolvimento das negociações regulares.
DÍVIDA PÚBLICA DE R$ 11,1 TRILHÕES ESTÁ ENTRE AS PRINCIPAIS PREOCUPAÇÕES
A reação dos investidores está associada, em parte, ao cenário fiscal brasileiro.
Segundo o Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto de 2026, equivalentes a 82,9% do Produto Interno Bruto.
A relação entre dívida e PIB aumentou 4,2 pontos percentuais desde o início do ano.
O indicador considera obrigações do Governo Federal, do Instituto Nacional do Seguro Social e dos governos estaduais e municipais, conforme a metodologia da autoridade monetária.
A trajetória de crescimento da dívida está relacionada a fatores como juros, emissões líquidas, variações cambiais e expansão nominal da economia.
Uma dívida elevada não significa, isoladamente, incapacidade de pagamento.
Entretanto, sua continuidade em trajetória ascendente pode aumentar as necessidades de financiamento, especialmente quando as taxas de juros permanecem elevadas.
A sustentabilidade fiscal dependerá da capacidade de administrar despesas, ampliar receitas de forma consistente e favorecer o crescimento econômico.
JUROS DA DÍVIDA CHEGARAM A R$ 1,18 TRILHÃO EM DOZE MESES
Outro indicador relevante é o custo financeiro do endividamento público.
Os juros nominais apropriados pelo setor público consolidado somaram aproximadamente R$ 1,182 trilhão nos doze meses encerrados em agosto de 2026, equivalentes a 8,86% do PIB.
No mesmo período, o déficit primário acumulado foi de R$ 82,1 bilhões, correspondentes a 0,62% do PIB.
A combinação desses resultados produziu déficit nominal de aproximadamente R$ 1,264 trilhão, equivalente a 9,48% do PIB.
A distinção entre os indicadores é fundamental.
O resultado primário considera receitas e despesas antes da contabilização dos juros.
Já o resultado nominal incorpora os encargos financeiros da dívida.
Esses números ajudam a explicar por que parte do mercado considera a estabilização do endividamento uma questão central para o próximo mandato.
A evolução das contas públicas dependerá também das condições de financiamento e do comportamento da taxa básica de juros.
LULA ENFRENTARÁ UM CONGRESSO SEM MAIORIA GOVERNISTA PRÓPRIA
A reeleição presidencial ocorreu simultaneamente à escolha de um Congresso com forte representação de partidos de centro, centro-direita e oposição.
Na Câmara dos Deputados, o PL contará com 121 representantes, enquanto o PT terá 70 integrantes dentro da federação formada com PCdoB e PV.
No Senado, o PL terá 29 parlamentares, diante de dez integrantes do PT.
A configuração exigirá negociações com diferentes bancadas para a aprovação de medidas econômicas e fiscais.
Projetos que envolvam alterações legislativas, revisão de despesas ou mudanças constitucionais dependerão dos quóruns previstos no ordenamento jurídico.
A necessidade de negociação não significa impossibilidade de aprovação de reformas.
Entretanto, aumenta a importância da construção de acordos e da apresentação de propostas capazes de reunir maiorias parlamentares.
Esse cenário também integra as avaliações dos investidores sobre a capacidade de execução de medidas econômicas no próximo mandato.
EQUIPE ECONÔMICA E POLÍTICA FISCAL SERÃO OBSERVADAS PELOS INVESTIDORES
Entre os aspectos acompanhados pelo mercado estão a composição da equipe econômica, as diretrizes fiscais e o relacionamento do Executivo com o Banco Central.
Analistas destacam que anúncios sobre equilíbrio orçamentário, trajetória da dívida e gestão das despesas poderão influenciar as expectativas financeiras.
Também serão observadas as condições para redução sustentável dos juros e recuperação da atividade produtiva.
Entretanto, a confiança dos investidores depende de medidas verificáveis, não apenas de declarações políticas.
Uma proposta de reorganização fiscal exige avaliação de receitas, despesas, impactos sociais e condições de implementação.
Da mesma forma, medidas de estímulo econômico precisam considerar seus efeitos sobre financiamento público, inflação e capacidade produtiva.
O desafio será compatibilizar prioridades sociais e econômicas com as restrições fiscais efetivamente existentes.
PREVIDÊNCIA E DESPESAS OBRIGATÓRIAS INTEGRAM DISCUSSÃO SOBRE AJUSTE
Entre os temas mencionados por especialistas está a trajetória das despesas obrigatórias da União.
A Previdência Social representa parcela expressiva do Orçamento Federal.
O crescimento da população idosa e as mudanças demográficas afetam as projeções de longo prazo para o financiamento dos benefícios.
Segundo o Censo Demográfico de 2022, a população brasileira com 65 anos ou mais apresentou crescimento de aproximadamente 57% entre 2010 e 2022.
Esse fenômeno reforça a importância de estudos atuariais e de planejamento orçamentário de longo prazo.
Entretanto, propostas de alteração previdenciária envolvem direitos fundamentais, regras constitucionais e impactos distributivos que exigem análise específica.
Também devem ser consideradas as diferenças entre regimes, as regras de transição e a proteção de direitos adquiridos.
O debate sobre sustentabilidade fiscal não estabelece automaticamente a necessidade de uma medida determinada.
Qualquer proposta deverá ser apresentada com fundamentação jurídica, estimativa financeira e avaliação de seus efeitos.
REAÇÃO NEGATIVA NÃO DETERMINA O DESEMPENHO ECONÔMICO DOS PRÓXIMOS QUATRO ANOS
A desvalorização observada nos ativos brasileiros negociados no exterior representa uma reação imediata dos investidores ao resultado eleitoral e à revisão das expectativas anteriormente incorporadas aos preços.
Esses movimentos, porém, não constituem uma previsão definitiva sobre o crescimento econômico, os investimentos ou o desempenho futuro das empresas.
Os mercados financeiros podem registrar oscilações expressivas em períodos curtos, influenciadas por liquidez, posições especulativas e mudanças de expectativa.
O comportamento de médio e longo prazo dependerá de fatores adicionais, como resultados corporativos, política monetária, trajetória fiscal, ambiente internacional e decisões do novo governo.
A avaliação da economia brasileira exigirá acompanhamento contínuo dos indicadores e das medidas efetivamente executadas.
SEGUNDA-FEIRA SERÁ O PRIMEIRO TESTE DO MERCADO DOMÉSTICO APÓS A ELEIÇÃO
A abertura da B3 em 26 de outubro será o primeiro momento de negociação regular dos ativos brasileiros depois da confirmação da reeleição presidencial.
Investidores acompanharão a formação das cotações do Ibovespa, do dólar e dos contratos de juros futuros.
Também estarão atentos a eventuais manifestações do Banco Central, do Ministério da Fazenda e das autoridades responsáveis pela condução econômica.
Os preços poderão apresentar forte volatilidade, mas qualquer avaliação definitiva dependerá dos resultados efetivamente registrados.
A existência de quedas expressivas em fundos negociados no exterior não permite afirmar antecipadamente que a Bolsa brasileira sofrerá desvalorização equivalente.
O novo mandato presidencial começará em janeiro de 2027, mas a revisão das expectativas econômicas já se manifesta nos preços negociados internacionalmente.
O resultado das urnas definiu a continuidade de Lula na Presidência. A reação dos mercados demonstra que investidores passaram a reavaliar riscos e expectativas, enquanto a trajetória econômica dependerá das decisões fiscais, monetárias e institucionais adotadas nos próximos meses.
(Da Redação do IGU News)
NOTA EDITORIAL — IGU NEWS
Esta reportagem utiliza dados econômicos oficiais do Banco Central e registros de negociação de ativos brasileiros nos mercados internacionais, divulgados em 25 de outubro de 2026.
As cotações do EWZ, dos ADRs e dos fundos negociados no Japão correspondem a momentos específicos de mercado e não representam necessariamente valores de fechamento.
As referências ao comportamento esperado da B3, do câmbio e dos juros futuros constituem projeções atribuídas a participantes do mercado financeiro, não resultados já verificados.
A pesquisa realizada com 73 gestores corresponde às expectativas dos profissionais consultados e não representa a opinião de todos os investidores ou da população brasileira.
A matéria distingue reações financeiras observadas, expectativas de mercado e indicadores econômicos oficiais, sem atribuir às oscilações de curto prazo capacidade de determinar o desempenho futuro da economia.




