Da postura provocativa no debate da Band à referência aos “nove dedos” de Lula no confronto da Globo, o candidato do PL ultrapassou limites que deveriam orientar o comportamento de quem pretende governar uma nação. A firmeza política não exige humilhação pessoal, e o respeito ao adversário é parte da dignidade do cargo presidencial.
IGU NEWS | ARTIGO DE OPINIÃO | 26 DE OUTUBRO DE 2026
Há uma diferença essencial entre firmeza e arrogância, entre autoridade e prepotência, entre enfrentar um adversário e tentar diminuí-lo. Essa distinção, que deveria ser elementar para qualquer pessoa investida de responsabilidade pública, parece ter sido esquecida em momentos decisivos da campanha presidencial de 2026.
Nos dois últimos debates entre Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizados pela Band, em 18 de outubro, e pela Globo, no dia 23, o senador apresentou comportamentos distintos, mas deixou episódios que merecem reflexão sobre os limites da disputa política e a postura esperada de alguém que pretende exercer a Presidência da República.
Não se trata de exigir cordialidade artificial, tampouco de transformar debates eleitorais em encontros protocolares. O confronto de ideias é indispensável à democracia. Candidatos devem questionar propostas, apontar contradições, cobrar explicações e submeter adversários ao escrutínio público.
O problema começa quando a crítica política é substituída pela provocação pessoal e a tentativa de desestabilizar o oponente passa a ocupar espaço que deveria pertencer às soluções para o país.
NA BAND, A PREPOTÊNCIA COMO ESTRATÉGIA
No debate da Band, Flávio Bolsonaro adotou uma postura ostensivamente provocativa. Sua movimentação pelo estúdio, especialmente quando procurava permanecer atrás ou próximo de Lula durante as respostas, produziu desconforto e exigiu intervenções da mediação.
É verdade que as regras permitiam a circulação dos candidatos. Contudo, a existência de uma permissão formal não significa que toda conduta praticada dentro dela seja politicamente adequada.
A própria mediadora, Adriana Araújo, precisou intervir durante as considerações finais do presidente, solicitando que Flávio aguardasse sua vez sem interferir no espaço do adversário.
O episódio, acompanhado por manifestações da plateia, interrompeu momentaneamente o debate e deslocou a atenção dos espectadores para um conflito que nada acrescentava à discussão dos problemas nacionais.
A estratégia podia produzir imagens favoráveis à campanha ou tentar desestabilizar emocionalmente o adversário. Entretanto, sob a perspectiva da postura institucional, transmitiu uma impressão de excesso, provocação calculada e dificuldade de reconhecer limites.
A arrogância política não se mede pelo volume da voz, mas pela atitude de quem parece considerar que constranger o outro é demonstração de superioridade.
Quem pretende governar o Brasil precisará negociar com adversários, ouvir críticas e conviver com autoridades que não compartilham suas convicções. Demonstrar domínio emocional nessas circunstâncias não é sinal de fraqueza. É requisito de maturidade.
NA GLOBO, UM ERRO DE NATUREZA MAIS GRAVE
Cinco dias depois, no debate da Globo, Flávio apresentou uma postura inicialmente mais contida. O confronto, embora intenso, transcorreu sob uma dinâmica menos tumultuada do que aquela observada na Band.
Entretanto, foi justamente nesse encontro que o senador cometeu, na avaliação deste artigo, seu erro mais grave.
Ao criticar uma proposta de Lula, afirmou que o presidente dava com uma mão e tirava com “nove dedos”.
A referência não dizia respeito a uma decisão administrativa, a uma proposta econômica ou a uma divergência ideológica.
Aludia à condição física de Lula, que perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho, em 1964, quando era um jovem operário metalúrgico.
A expressão constitui uma forma de ataque pessoal depreciativo baseado em característica física decorrente de acidente laboral. No contexto em que foi empregada, revela também um componente de insensibilidade diante da experiência de trabalhadores que sofreram mutilações ou incapacidades no exercício de suas profissões.
Não é necessário atribuir ao senador uma intenção discriminatória juridicamente comprovada para reconhecer a inadequação da fala.
O problema está no conteúdo objetivo da referência e na utilização de uma sequela física como instrumento de provocação eleitoral.
A deficiência ou a perda anatômica de uma pessoa jamais deveria servir de recurso retórico para desacreditá-la.
O PEDIDO DE DESCULPAS NÃO APAGA A GRAVIDADE DA FALA
Lula reagiu com indignação e exigiu uma retratação. Flávio respondeu dizendo que não pretendia ofendê-lo e apresentou desculpas durante o próprio debate.
O pedido deve ser reconhecido como fato relevante. Retratar-se publicamente é preferível a insistir em uma manifestação ofensiva.
Mas a desculpa posterior não elimina a necessidade de examinar o comportamento que a tornou necessária.
O senador não estava em uma conversa privada, marcada pela informalidade. Participava do último debate presidencial, diante de milhões de brasileiros, em uma ocasião destinada a avaliar sua preparação para o mais importante cargo político do país.
A responsabilidade associada à condição de candidato à Presidência exige maior cuidado com as palavras, sobretudo quando elas se referem à dignidade pessoal de um adversário.
O presidente Lula pode e deve ser criticado por suas decisões, propostas, políticas econômicas e resultados administrativos. Nenhuma autoridade está acima do questionamento público.
Mas existe uma diferença incontornável entre contestar os atos de um governante e ridicularizar uma consequência permanente de um acidente de trabalho.
RESPEITAR O ADVERSÁRIO É RESPEITAR A INSTITUIÇÃO
Há outro aspecto que torna o episódio particularmente significativo.
Flávio Bolsonaro não debatia apenas com um concorrente eleitoral. Debatia com o presidente da República no exercício do mandato.
Isso não concede a Lula qualquer imunidade à crítica, nem estabelece superioridade pessoal sobre seu adversário.
Impõe, contudo, uma reflexão sobre o respeito devido à instituição presidencial, independentemente de quem temporariamente a ocupe.
O mesmo princípio deverá proteger qualquer outro presidente, de qualquer partido, porque a dignidade da função pública não pode depender da simpatia ideológica de seus adversários.
O respeito institucional é recíproco. Também Lula, ao utilizar expressões depreciativas contra Flávio durante os debates, submeteu suas próprias manifestações ao mesmo padrão de avaliação.
Nenhum candidato recebe autorização moral para humilhar o outro em razão das ofensas que tenha recebido.
A democracia não melhora quando a grosseria se transforma em método e o constrangimento pessoal passa a ser confundido com capacidade de liderança.
O PRESIDENTE QUE O BRASIL PRECISA SABER RECONHECER
O episódio dos “nove dedos” ultrapassa a biografia de Lula.
Milhares de brasileiros carregam sequelas de acidentes de trabalho, doenças, condições congênitas ou outras circunstâncias que modificaram permanentemente seus corpos.
Essas pessoas não podem ser reduzidas às suas limitações físicas, muito menos utilizadas como referência jocosa em disputas pelo poder.
A experiência de um trabalhador que perdeu parte de seu corpo deveria despertar respeito, não servir de instrumento de ironia.
É precisamente nesses momentos que se distingue a agressividade eleitoral da grandeza institucional.
Um estadista não precisa abdicar de suas convicções. Precisa demonstrar que consegue defendê-las sem desconsiderar a dignidade humana de quem pensa diferente.
A derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro não torna desnecessária essa reflexão. Pelo contrário, oferece a oportunidade de examinar o comportamento político sem a urgência imediata da escolha nas urnas.
A direita brasileira possui legitimidade para apresentar seus projetos, fiscalizar o governo e disputar democraticamente o poder. Sua capacidade de ampliar a representação dependerá também da qualidade de suas lideranças e dos exemplos que oferecerem à sociedade.
A GRANDEZA QUE FALTOU AOS DEBATES
A Presidência da República exige muito mais do que capacidade de produzir frases de efeito, constranger adversários ou conquistar aplausos de uma plateia.
Exige equilíbrio, autocontrole, respeito institucional e compreensão de que o exercício do poder envolve brasileiros com histórias, convicções e condições humanas diferentes.
Na Band, Flávio Bolsonaro demonstrou uma agressividade que, a meu ver, confundiu provocação com autoridade. Na Globo, mesmo adotando uma postura mais moderada, permitiu-se uma referência pessoal que jamais deveria integrar o repertório de um candidato presidencial.
O erro não foi enfrentar Lula com firmeza. Foi ultrapassar a fronteira entre a crítica legítima e a depreciação pessoal.
É possível discordar profundamente de um presidente sem diminuir o homem que ocupa o cargo. É possível combater suas ideias sem explorar suas características físicas. E é possível disputar o poder sem transformar a humilhação em estratégia.
A verdadeira estatura de um líder não se revela quando consegue constranger um adversário, mas quando demonstra ser capaz de respeitá-lo mesmo diante das divergências mais profundas.
É essa grandeza que a Presidência da República exige. E foi justamente ela que faltou nos episódios mais lamentáveis dos últimos debates de 2026.



