
Por Augustus Nicodemus*
Há uma forma de alienação que a Bíblia não somente admite, mas celebra. O apóstolo Pedro, escrevendo às igrejas espalhadas pelo Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, identifica os seus destinatários logo na abertura da carta como “escolhidos, exilados da dispersão” (1 Pedro 1.1 NAA), e mais adiante os exorta como “amados, rogo-vos como a estrangeiros e forasteiros que vos abstenhais dos desejos carnais, que guerreiam contra a alma” (1 Pedro 2.11 NAA). Aqui está uma das imagens mais poderosas do Novo Testamento para descrever a identidade do cristão no mundo: somos alienígenas. Somos estranhos. Somos aqueles que não se encaixam, que causam estranhamento, que são vistos como diferentes pelos que os rodeiam.
Quando Pedro escreveu isso, não estava sendo metafórico no sentido vago em que às vezes se usa essa linguagem. Ele estava descrevendo uma realidade existencial concreta. Os cristãos da Ásia Menor do primeiro século haviam, de fato, se tornado estranhos em sua própria cultura. Haviam deixado de participar dos festins associados à idolatria, das orgias e bebedeiras que eram parte normal da vida social da época, das práticas religiosas que estruturavam a vida pública das cidades gregas e romanas. E os seus vizinhos e antigos amigos estranhavam isso. Pedro descreve com precisão a reação dos pagãos: “O que os surpreende é que vocês não correm com eles para o mesmo transbordamento de devassidão, por isso os difamam” (1 Pedro 4.4 NAA). A estranheza dos cristãos provocava hostilidade. O diferente incomoda; o que não participa da norma é suspeito.
Simon Kistemaker captou bem essa dinâmica quando escreveu: “Em um mundo de pecado, os cristãos são forasteiros, especialmente se já fizeram parte do mundo. Não se sentem mais à vontade num ambiente que lhes é estranho.” Antes da conversão, o crente participava da vida do mundo sem tensão. Depois da conversão, tudo muda. Ele ainda vive no mesmo bairro, trabalha na mesma empresa, convive com as mesmas pessoas. Mas sua relação com o mundo ao redor transformou-se radicalmente. Ele já não consegue mais fazer certas coisas que antes lhe pareciam naturais, e essa incapacidade de continuar como antes é sinal de que algo real aconteceu em seu interior.
Mas é preciso entender bem o que significa ser estrangeiro e forasteiro no sentido bíblico. Não significa ser anti-social, introvertido, fechado ao mundo ou aos que estão fora da fé. O mesmo Pedro que chama os cristãos de forasteiros os exorta a ter boa conduta entre os gentios (1 Pedro 2.12), a estar prontos para dar razão da esperança que têm a quem lhos perguntar (1 Pedro 3.15), a ser hospitaleiros (1 Pedro 4.9). Ser estrangeiro no mundo não é retirar-se do mundo, mas viver no mundo de uma maneira diferente, guiada por valores e lealdades que não são os do mundo. Como disse o próprio Senhor Jesus: “Eles não são do mundo, assim como eu não sou do mundo” (João 17.16 NAA), e ao mesmo tempo: “Eu não peço que os retires do mundo, mas que os guardes do Maligno” (João 17.15 NAA).
Esse estranhamento tem consequências pastorais concretas. Uma delas é a tentação de ceder à pressão cultural para parecer menos estranho, menos diferente, menos incômodo. O apóstolo Paulo identificou essa tentação ao escrever sobre os que não queriam “parecer um alienígena” diante dos colegas de trabalho incrédulos. A pressão para se conformar, para baixar a guarda ética, para adotar a linguagem e os costumes do mundo é real e constante. Mas ceder a ela não é sabedoria missionária; é abandono de identidade. A influência que os cristãos exercem no mundo não vem da similaridade, mas da diferença — da diferença de um caráter moldado pelo Evangelho, de uma esperança que o mundo não tem, de um amor que vai além do que a natureza humana pode produzir. Ser alienígena nesse sentido é ser sal e luz — e o sal só cumpre sua função quando permanece sendo sal.




