Manchete 4

DIREITA REDESENHA SENADO E APROXIMA IMPEACHMENT DE MINISTROS DO STF DA MATEMÁTICA REAL

PL salta de 15 para 28 senadores e terá sozinho mais de um terço da Casa a partir de 2027. Levantamentos apontam de 49 a 54 parlamentares favoráveis ao afastamento de ministros do Supremo, mas composição final, presidência do Senado e exigências jurídicas ainda serão determinantes.

O resultado das eleições de domingo, 4 de outubro, produziu uma das mudanças mais profundas na correlação de forças do Senado Federal desde a Constituição de 1988.

O PL elegeu 19 dos 54 senadores escolhidos neste domingo e deverá iniciar 2027 com 28 das 81 cadeiras, equivalentes a 34,57% de todo o Senado.

Será, se a projeção se confirmar em fevereiro, a maior bancada partidária no início de uma legislatura desde 1988, superando inclusive os 27 senadores com que o então PMDB começou a legislatura de 1999.

O resultado altera não apenas a tramitação de projetos e emendas constitucionais. Ele muda a relação do Senado com o próximo presidente da República, com o Supremo Tribunal Federal e com as indicações para algumas das funções mais poderosas do Estado brasileiro.

O SENADO DE HOJE

A composição em exercício nesta segunda-feira, 5 de outubro, ainda é bastante pulverizada.

O PL possui 15 senadores. O PSD tem 14; PT e MDB, nove cada; PP, oito; Republicanos e PSB, seis cada; PSDB, quatro; Podemos e União Brasil, três cada; PDT, dois; Avante, um; e há ainda um senador sem partido, Romário. O Novo não possui atualmente senador em exercício.

A fotografia partidária atual é esta:

PARTIDO HOJE %
PL 15 18,52%
PSD 14 17,28%
PT 9 11,11%
MDB 9 11,11%
PP 8 9,88%
Republicanos 6 7,41%
PSB 6 7,41%
PSDB 4 4,94%
Podemos 3 3,70%
União Brasil 3 3,70%
PDT 2 2,47%
Avante 1 1,23%
Sem partido 1 1,23%
TOTAL 81 100%

Mais importante do que os partidos isoladamente é observar que o Senado atual funciona por blocos parlamentares.

O Bloco da Resistência Democrática, composto por PSD e PSB, reúne 20 membros. O Bloco Democracia, com MDB, PSDB, Podemos e União Brasil, possui 19. O Vanguarda, formado por PL e Avante, soma 16.

O Bloco Aliança, composto por PP e Republicanos, reúne 14; e o Pelo Brasil, integrado por PT e PDT, tem 11. Há ainda Romário sem partido.

É um Senado no qual nenhuma força ideológica controla sozinha a Casa e no qual o centro continua exercendo enorme capacidade de arbitragem.

O SENADO QUE EMERGE DAS URNAS

A partir de 1º de fevereiro de 2027, a distribuição prevista muda de forma radical.

O PL deverá ter 28 senadores. O PT permanece com nove; o MDB cai para oito; PP e União terão seis cada; Republicanos e PSD, cinco; PSB, quatro; Novo, três; PSDB e Podemos, dois cada; PDT e Rede, um cada. Romário permanece, neste momento, sem partido.

A projeção é:

PARTIDO 2027 %
PL 28 34,57%
PT 9 11,11%
MDB 8 9,88%
PP 6 7,41%
União Brasil 6 7,41%
Republicanos 5 6,17%
PSD 5 6,17%
PSB 4 4,94%
Novo 3 3,70%
PSDB 2 2,47%
Podemos 2 2,47%
PDT 1 1,23%
Rede 1 1,23%
Sem partido 1 1,23%
TOTAL 81 100%

A mudança mais espetacular está nos dois maiores partidos atuais.

O PL passa de 15 para 28 cadeiras, ganho líquido de 13.

O PSD percorre trajetória inversa: dos atuais 14 senadores em exercício, deverá cair para apenas cinco em fevereiro.

O PT, por outro lado, mantém nove cadeiras. O MDB cai de nove para oito.

A DIREITA MUDA DE PATAMAR

Classificar partidos brasileiros rigidamente como direita, centro e esquerda exige cautela. Siglas como PSD, MDB, União e até PP podem apresentar comportamentos diferentes dependendo da pauta.

É possível, entretanto, construir uma fotografia analítica.

Considerando como núcleo de direita e centro-direita conservadora PL, PP, Republicanos e Novo, esse campo possui hoje 29 senadores.

Em 2027, os mesmos quatro partidos deverão reunir 42 cadeiras — 51,85% de todo o Senado.

Somando partidos frequentemente situados no campo de centro-direita, como PSDB, Podemos e União Brasil, esse universo potencial chega a 52 senadores.

Isso não significa 52 votos automáticos para uma pauta da direita.

Mas significa que o centro de gravidade ideológico da Casa se desloca nitidamente.

A ESQUERDA ENCOLHE RELATIVAMENTE

Se adotarmos como campo de esquerda e centro-esquerda PT, PSB, PDT e Rede, esse grupo terá aproximadamente 15 senadores em 2027.

Hoje, PT, PSB e PDT reúnem 17.

O PT preserva seus nove mandatos, mas o peso relativo da legenda diminui porque o PL praticamente dobra de tamanho.

A esquerda, portanto, não desaparece do Senado. Continua tendo força suficiente para atuar em comissões, obstruções e negociações.

Mas deixa de possuir, por si ou com aliados imediatos, capacidade para impedir determinadas maiorias formadas pela direita com o centro.

O CENTRO PERDE O MONOPÓLIO DA ARBITRAGEM

Essa talvez seja a alteração mais importante.

Atualmente, bancadas centristas ou heterogêneas possuem tamanho suficiente para determinar praticamente qualquer votação apertada.

Em 2027, continuarão importantes, mas a direita parte de uma base muito maior.

MDB, PSD, União, PSDB, Podemos e o senador sem partido representarão, pela classificação analítica adotada pelo IGU News, aproximadamente 24 cadeiras.

Isso transforma esses senadores no grupo decisivo para votações constitucionais ou institucionais de alto quórum.

A MATEMÁTICA DO STF

É justamente nesse ponto que entra uma das principais bandeiras eleitorais da direita em 2026: o afastamento de ministros do Supremo Tribunal Federal.

O termo jurídico mais correto não é “cassação”.

A Constituição atribui privativamente ao Senado a competência para processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade. Em caso de condenação, a consequência é a perda do cargo e inabilitação por oito anos para exercer função pública.

Para condenar um ministro são necessários dois terços dos 81 senadores — 54 votos.

Esse número é o verdadeiro divisor de águas.

O PL terá 28.

PL + PP + Republicanos + Novo chegam a 42.

Se forem acrescentados PSDB e Podemos, seriam 46.

Incluindo ainda os seis senadores do União Brasil, esse conjunto alcançaria 52.

Mesmo uma coalizão tão ampla ainda precisaria, nessa conta partidária puramente teórica, de pelo menos dois votos adicionais.

LEVANTAMENTOS JÁ COLOCAM O NÚMERO PERTO DOS 54

A votação partidária, contudo, não é a única forma de medir essa pauta.

Levantamento publicado pela Folha nesta segunda-feira identificou ao menos 49 senadores da futura composição que já se posicionaram favoravelmente ao impeachment de ministros do STF.

Nesse cenário, faltariam apenas cinco votos para os 54 necessários.

Outro levantamento, feito pelo Ranking dos Políticos e divulgado pela CNN Brasil, chegou a uma conclusão ainda mais forte: 54 dos futuros 81 senadores já teriam manifestado posição favorável ao impeachment, exatamente o número necessário para atingir dois terços.

A divergência é metodológica.

Alguns parlamentares defendem genericamente a possibilidade de impeachment. Outros condicionam o voto à existência de determinado fato ou crime de responsabilidade. Há ainda posições específicas em relação a determinados ministros.

Portanto, seria jornalisticamente incorreto afirmar hoje que já existem 54 votos fechados para retirar algum ministro específico.

Mas também seria incorreto dizer que essa possibilidade permanece apenas retórica.

PELA PRIMEIRA VEZ, A CONTA SE TORNA PLAUSÍVEL

O resultado das urnas aproxima o discurso político de uma possibilidade numericamente concreta.

Até agora, pedidos contra ministros do Supremo acumulavam-se no Senado sem produzir processo efetivo. O próprio Senado informa que nunca foi aprovado um impeachment de ministro do STF.

Há atualmente, inclusive, petições contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli aguardando tramitação. Entre elas estão representações protocoladas em setembro de 2026.

O cenário de 2027 será diferente porque haverá uma bancada significativamente maior disposta, ao menos politicamente, a discutir essas medidas.

MAS EXISTE OUTRA BARREIRA: A PRESIDÊNCIA DO SENADO

A eleição do presidente da Casa será tão importante quanto a composição das bancadas.

A denúncia contra ministro do Supremo é protocolada no Senado e submetida ao processamento interno da Casa. O presidente do Senado possui papel central no encaminhamento dessas representações.

A própria Assessoria do Senado explica que, depois do protocolo, o pedido é encaminhado para avaliação técnica antes de eventual deliberação.

Por isso, o PL não disputa apenas cadeiras.

Disputa também o comando da Casa.

Nomes como Rogério Marinho, do PL, e Tereza Cristina, do PP, passaram a aparecer nas articulações para a presidência do Senado, enquanto Davi Alcolumbre busca preservar sua influência.

Para eleger o presidente da Casa são necessários 41 votos.

O PL terá 28 e, segundo levantamento da Folha, poderá partir de um universo político maior, formado por aliados eleitos em outras legendas.

UMA NOVA BARREIRA JURÍDICA

Há ainda uma questão jurídica particularmente importante.

Em dezembro de 2025, o ministro Gilmar Mendes concedeu liminar nas ADPFs 1.259 e 1.260 estabelecendo a exigência de dois terços dos senadores também para a abertura do processo contra ministro do STF.

Dias depois, Gilmar reconsiderou parcialmente a decisão, mas suspendeu apenas os pontos que restringiam à Procuradoria-Geral da República a possibilidade de apresentar a denúncia. O restante da liminar permaneceu.

O mérito dessas ações ainda não foi definitivamente julgado pelo plenário do Supremo. Em fevereiro de 2026, os processos continuavam conclusos ao relator.

Isso significa que, no quadro jurídico atual, os 54 votos não seriam necessários apenas ao final para condenar: a exigência de dois terços também pesa sobre a abertura do processo enquanto a liminar permanecer vigente.

Esse ponto poderá ser novamente discutido judicialmente ou pelo próprio Congresso.

O RESULTADO DAS URNAS NÃO É UM MANDATO AUTOMÁTICO CONTRA O STF

O avanço conservador é inequívoco.

O PL elegeu 19 senadores, ficará com 28 cadeiras e fez as duas vagas em cinco unidades da Federação: Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia e Santa Catarina.

A pauta crítica ao STF também apareceu explicitamente na campanha de diversos candidatos.

Mas eleição parlamentar não equivale juridicamente a autorização para afastar magistrados.

Cada eventual processo exigirá denúncia, enquadramento em crime de responsabilidade, tramitação regular, contraditório, defesa e votação nominal dos senadores.

O que as eleições fizeram foi retirar o tema do campo da impossibilidade matemática.

O SENADO PASSA A SER O CENTRO DA POLÍTICA NACIONAL

A Casa Alta terá influência muito além da pauta do Supremo.

O Senado precisa aprovar, por maioria absoluta de 41 votos, os nomes indicados pelo presidente da República para o próprio STF.

Também sabatina autoridades, aprova procurador-geral da República, dirigentes do Banco Central, embaixadores, participa de CPIs e vota emendas constitucionais.

Quem vencer a Presidência da República em 25 de outubro encontrará, portanto, um Senado muito diferente do atual.

Se Flávio Bolsonaro vencer, terá diante de si um PL com 28 senadores e um campo conservador fortemente ampliado.

Se Lula for reeleito, enfrentará uma Casa em que sua legenda terá apenas nove dos 81 votos e dependerá intensamente de negociações com MDB, PSD, União e outros partidos de centro.

Em ambos os cenários, o Senado eleito neste domingo terá condições de impor limites ao Executivo, influenciar a formação do Supremo e redefinir a relação institucional entre Congresso e Judiciário.

A COMPOSIÇÃO AINDA NÃO É DEFINITIVA

Existe uma última ressalva necessária.

A projeção de 2027 poderá sofrer alterações.

Alan Rick, do Republicanos, disputa o segundo turno para governador do Acre; se vencer, será substituído por um suplente do PSD. Omar Aziz, do PSD, disputa o Amazonas; se eleito governador, sua suplente é do PT.

Professora Dorinha, do União Brasil, disputa o governo de Tocantins, mas sua suplente pertence ao mesmo partido.

Além disso, a eleição de Deltan Dallagnol (Novo-PR) permanece juridicamente sub judice. A Agência Senado ressalta que eventual reversão definitiva de seu registro poderá exigir nova eleição para a vaga.

Portanto, a fotografia desta segunda-feira é uma projeção altamente consistente, mas ainda não absolutamente fechada.

O dado político fundamental, contudo, dificilmente será alterado: a direita sai das eleições de 2026 muito mais forte no Senado, o PL transforma-se no centro gravitacional da Casa e o impeachment de ministros do STF, antes distante numericamente, passa a integrar o universo das possibilidades reais — embora ainda dependa de pelo menos 54 votos, de um caso juridicamente sustentável e de uma articulação política que ultrapasse as fronteiras do próprio PL.

(Da Redação do IGU News)

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