Opinião

APÓS MANIFESTO, CLUBES TENTAM ABRIR NEGOCIAÇÃO COM O GOVERNO SOBRE O FUTURO DAS BETS – Dirigentes da Série A procuram ministros e interlocutores do governo Lula depois de reagirem publicamente à possibilidade de novas restrições aos jogos e à publicidade do setor. Clubes dizem que não foram ouvidos e querem participar da construção das regras; ao mesmo tempo, cresce a pressão de entidades que cobram medidas mais duras contra ludopatia, endividamento e exposição excessiva às apostas.

O manifesto divulgado por clubes brasileiros em defesa do mercado regulamentado de apostas não encerrou a reação do futebol à possibilidade de o governo federal endurecer as regras sobre as bets.

Agora, os dirigentes procuram abrir um canal direto de negociação com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Presidentes e representantes de equipes da Série A começaram a acionar ministros e interlocutores do Palácio do Planalto para entender quais medidas efetivamente estão sendo preparadas e, principalmente, garantir que os clubes tenham participação no debate antes de qualquer mudança de grande alcance.

A movimentação ganhou força nesta quinta-feira (17), inicialmente entre clubes paulistas, e passou a envolver dirigentes de outras regiões. Segundo a Folha de S.Paulo, os primeiros contatos com integrantes do alto escalão federal ainda não produziram uma definição do governo sobre o formato final das medidas.

CLUBES RECLAMAM QUE FICARAM FORA DA DISCUSSÃO

Uma das principais queixas dos dirigentes é justamente não terem participado da elaboração inicial das propostas.

Os clubes argumentam que o setor de apostas foi regulamentado pelo próprio Estado brasileiro, passou por processo de autorização federal e tornou-se, em poucos anos, uma das maiores fontes privadas de financiamento do futebol.

Desde 1º de janeiro de 2025, apenas empresas previamente autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem explorar nacionalmente apostas de quota fixa. As plataformas federais autorizadas utilizam o domínio “.bet.br”.

Em agosto deste ano, o Ministério da Fazenda informou que havia 85 empresas habilitadas pela secretaria para explorar essa modalidade no país.

Para os clubes, mudanças estruturais nesse modelo deveriam incluir na mesa também aqueles que passaram a depender comercialmente dele.

O GOVERNO DISCUTE UMA MEDIDA PROVISÓRIA

A preocupação aumentou depois que reportagens apontaram que o governo prepara uma Medida Provisória para proibir ou restringir fortemente determinadas modalidades de jogos de cassino online e endurecer as condições das apostas esportivas.

Até esta sexta-feira (18), entretanto, o texto definitivo não havia sido oficialmente publicado.

Isso significa que detalhes sobre quais jogos seriam efetivamente proibidos, quais regras de publicidade seriam modificadas e como eventuais contratos já existentes seriam tratados ainda dependem da versão que chegar ao Diário Oficial.

Reportagens do UOL apontam que a proposta em preparação tem como uma de suas motivações a preocupação do governo com dependência em apostas e endividamento das famílias.

O ge informou que existe também discussão interna no governo sobre a extensão da medida, inclusive com setores defendendo que uma eventual proibição se concentre em determinados jogos de cassino online, em vez de alcançar toda a estrutura regulamentada das apostas esportivas.

Portanto, enquanto a MP não for publicada, é importante distinguir propostas em discussão de regras já vigentes.

MANIFESTO FOI O PRIMEIRO MOVIMENTO

A reação pública ocorreu na quinta-feira.

Clubes de São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados divulgaram um manifesto conjunto defendendo a continuidade das operações e da publicidade das empresas autorizadas.

A mensagem recebeu apoio de federações estaduais e sustentou que as receitas provenientes das bets passaram a financiar não apenas os principais times, mas também equipes menores, divisões inferiores, categorias de formação e outras estruturas do futebol.

A frase mais repercutida veio no encerramento do documento:

segundo os clubes, caso o mercado regulado desapareça, as apostas não necessariamente desapareceriam, mas o futebol perderia uma fonte essencial de recursos.

A formulação acabou sintetizada na expressão de que seria o “fim do futebol brasileiro”, frase que provocou intensa reação e ironia nas redes sociais.

AGORA A ESTRATÉGIA MUDA DA NOTA PÚBLICA PARA A NEGOCIAÇÃO

Depois do manifesto, os dirigentes passaram a buscar interlocução direta.

O objetivo é conseguir uma reunião com integrantes do Executivo — e eventualmente com o próprio presidente — para apresentar números sobre contratos, receitas e impactos de eventuais restrições.

Os clubes também querem entender se o foco do governo será:

a proibição de determinados jogos online;

restrições sobre publicidade;

limitações a patrocínios esportivos;

novas regras de proteção ao apostador;

ou uma combinação desses elementos.

Essa diferença é fundamental.

Proibir um determinado tipo de jogo não é a mesma coisa que proibir publicidade. E restringir publicidade não significa necessariamente extinguir o mercado regulamentado.

O FUTEBOL TENTA APRESENTAR UMA POSIÇÃO UNIFICADA

Apesar de a articulação ter começado com forte participação de dirigentes paulistas, a intenção é evitar respostas isoladas de cada clube.

Segundo a Folha, as equipes da Série A procuram demonstrar unidade e passaram a coordenar manifestações sobre o assunto.

O movimento ocorre porque uma alteração regulatória federal afetaria simultaneamente contratos espalhados por praticamente todo o campeonato.

Hoje, as bets estão menos presentes como patrocinadoras máster do que estavam em 2025, mas permanecem extremamente relevantes.

13 DOS 20 CLUBES DA SÉRIE A TÊM BET COMO PATROCINADORA MÁSTER

Levantamento publicado pela Folha mostra que, em 2025, 18 dos 20 clubes da Série A tinham uma empresa de apostas ocupando o principal espaço comercial da camisa.

Em 2026, esse número caiu para 13 dos 20.

A redução não significa necessariamente perda de importância econômica.

Parte do investimento foi concentrada em contratos maiores com determinados clubes.

O Flamengo, por exemplo, saiu de um acordo de aproximadamente R$ 125 milhões anuais com a Pixbet para um contrato de R$ 268,5 milhões por ano com a Betano, podendo alcançar cerca de R$ 280 milhões com variáveis.

O Corinthians renovou seu vínculo com a Esportes da Sorte por cerca de R$ 150 milhões fixos, com possibilidade de alcançar R$ 200 milhões.

Esses são exemplos de como as bets passaram a disputar alguns dos espaços comerciais mais caros do esporte brasileiro.

CLUBES FALAM EM IMPACTO DE CERCA DE R$ 1 BILHÃO

Nas discussões internas divulgadas pelo UOL, dirigentes trabalham com uma estimativa de impacto de aproximadamente R$ 1 bilhão apenas nos contratos de patrocínio caso houvesse uma retirada ampla das casas de apostas do futebol.

Trata-se de uma estimativa apresentada pelo setor, e não de um cálculo oficial do governo.

Os clubes acrescentam que o impacto poderia ir além das camisas.

As empresas de apostas também compram publicidade em televisão, rádio, transmissões digitais e competições.

Na visão dos dirigentes, uma queda acentuada dessa receita publicitária poderia indiretamente atingir valores pagos por direitos de transmissão e premiações.

CLUBES DEFENDEM COMBATE ÀS EMPRESAS ILEGAIS

O manifesto não defende que o setor permaneça sem fiscalização.

Os clubes afirmam que o caminho deveria ser:

combater operadores clandestinos, intensificar fiscalização e aperfeiçoar mecanismos de proteção ao apostador, mantendo em funcionamento as empresas autorizadas.

Essa posição coincide com uma das preocupações do próprio Ministério da Fazenda.

A regulamentação federal prevê mecanismos para impedir transações destinadas a operadores não autorizados, e uma portaria publicada em setembro de 2026 atualizou os procedimentos destinados à identificação e repressão dessas operações irregulares.

JOGO RESPONSÁVEL TAMBÉM ESTÁ NA AGENDA DO GOVERNO

A discussão oficial sobre apostas não se restringe à autorização das empresas.

A Secretaria de Prêmios e Apostas mantém regras específicas sobre jogo responsável, publicidade e marketing, previstas na Portaria SPA/MF nº 1.231/2024 e suas atualizações.

A Agenda Regulatória 2026–2027 do Ministério da Fazenda também prevê o aprimoramento das políticas de prevenção aos transtornos decorrentes do jogo patológico, inclusive com ferramentas destinadas a permitir que apostadores acompanhem seu comportamento de jogo e que perfis de risco possam ser identificados.

Isso mostra que o conflito atual não acontece entre um mercado completamente desregulado e uma futura regulamentação.

Ele ocorre dentro de um mercado que já está regulado, mas cuja regulamentação está novamente sendo discutida e potencialmente endurecida.

CLUBES RECONHECEM PROBLEMA DA LUDOPATIA

Na própria carta, os dirigentes afirmam reconhecer os problemas associados ao vício em apostas e ao endividamento.

Eles se colocaram à disposição dos governos e do Congresso para participar de campanhas de educação e conscientização.

Essa passagem é importante porque indica uma mudança no próprio discurso do futebol.

A defesa dos patrocínios já não pode simplesmente ignorar os efeitos sociais associados ao jogo.

A discussão passou a ser sobre qual resposta regulatória deve ser adotada.

DO OUTRO LADO, ENTIDADES DIZEM QUE O CUSTO SOCIAL JÁ É PAGO PELO TORCEDOR

A manifestação dos clubes provocou uma reação igualmente organizada.

A coalizão Brasil Contra Bets, formada por 22 organizações, respondeu nesta sexta-feira dizendo que o argumento de que o setor é indispensável para a sustentabilidade financeira do futebol ignora os impactos sociais das apostas.

A coalizão sustenta que o torcedor já arca com consequências relacionadas a endividamento e dependência e defende restrições mais severas a cassinos online e à publicidade.

Assim, a discussão passou a ter duas posições públicas bem delimitadas.

De um lado, clubes e empresas defendem preservar o mercado legal e combater o clandestino.

Do outro, organizações de saúde e entidades civis sustentam que apenas regulamentação não basta e defendem redução muito maior da exposição da população às apostas.

NÃO EXISTE APENAS UMA ALTERNATIVA ENTRE LIBERAÇÃO TOTAL E PROIBIÇÃO TOTAL

O debate pode comportar soluções intermediárias.

Entre as possibilidades discutidas no Brasil e em outros mercados estão:

restrição de publicidade em determinados horários;

limites para propaganda durante transmissões esportivas;

proibição de publicidade destinada a menores;

restrições a influenciadores;

advertências obrigatórias;

limites para patrocínio em uniformes;

controle de determinadas modalidades de cassino;

ferramentas de autoexclusão;

limites financeiros definidos pelo apostador;

e monitoramento de comportamentos indicativos de dependência.

É exatamente essa área intermediária que os clubes agora tentam ocupar na negociação com o governo.

SÃO PAULO TAMBÉM TEM PROJETOS DE RESTRIÇÃO

A preocupação não é apenas federal.

Na cidade e no estado de São Paulo há iniciativas legislativas voltadas a limitar a exposição das apostas.

Entre elas está o PL 560/2025, citado pelos dirigentes, que propõe restrições à publicidade de apostas esportivas e jogos online em eventos esportivos e espaços públicos municipais.

Segundo a proposta mencionada pela Folha, estão previstas multas e destinação dos recursos arrecadados para ações relacionadas à prevenção da ludopatia.

A multiplicação de projetos ajudou a convencer dirigentes de que o tema deixou de ser circunstancial e pode alterar estruturalmente a relação entre futebol e casas de apostas.

O ARGUMENTO DOS CLUBES ENFRENTA RESISTÊNCIA ATÉ ENTRE COMENTARISTAS DE FUTEBOL

A frase sobre o possível “fim do futebol brasileiro” recebeu críticas públicas nesta sexta-feira.

Comentaristas do UOL sustentaram que o futebol brasileiro existia antes da chegada das bets e que a dependência atual não pode, por si só, justificar a manutenção ilimitada da publicidade.

Também há quem defenda uma retirada gradual da publicidade, evitando ruptura repentina de contratos e criando prazo para adaptação dos clubes, em modelo semelhante ao utilizado em outros setores e competições internacionais.

Essas posições são análises dos respectivos comentaristas, não decisões governamentais.

A QUESTÃO CENTRAL PASSOU A SER A TRANSIÇÃO

Se o governo realmente decidir restringir de maneira relevante publicidade, cassinos online ou patrocínios, um dos principais pontos da negociação deverá ser o prazo de adaptação.

Clubes possuem contratos plurianuais.

Empresas fizeram investimentos com base em autorizações vigentes.

Emissoras venderam espaços publicitários.

Competições organizaram receitas contando com patrocinadores.

Uma alteração imediata produziria consequências diferentes de uma mudança progressiva.

É provável que esse tema esteja no centro das conversas que dirigentes tentam abrir em Brasília.

A REGULAMENTAÇÃO ATUAL FOI CONSTRUÍDA NOS ÚLTIMOS ANOS

As apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas pela Lei nº 13.756/2018.

A Lei nº 14.790/2023 ampliou e detalhou a regulamentação, incluindo jogos online.

Desde 2025, o mercado federal passou a funcionar com operadores previamente autorizados, requisitos técnicos e financeiros, regras de publicidade e mecanismos de fiscalização.

É justamente essa trajetória que os clubes utilizam como argumento:

para eles, depois de o Estado criar e regulamentar o mercado, uma reversão profunda deveria ocorrer mediante diálogo com todos os setores economicamente afetados.

MAS REGULAMENTAR NÃO IMPEDE O ESTADO DE REVER AS REGRAS

O argumento contrário também possui fundamento institucional.

O fato de uma atividade ter sido regulamentada não impede que o poder público posteriormente modifique suas regras diante de novos dados sobre saúde pública, consumo ou impactos sociais.

Essa tensão entre segurança econômica dos contratos e capacidade regulatória do Estado deverá atravessar a discussão.

E será especialmente importante se o governo decidir introduzir mudanças por Medida Provisória.

POR ENQUANTO, NÃO HÁ ACORDO

Até o fim desta sexta-feira, os contatos iniciais dos dirigentes não haviam produzido um compromisso público do governo com a manutenção do modelo atual.

Também não houve anúncio de que o Executivo tenha aceitado as reivindicações dos clubes.

O que existe é uma tentativa de abrir negociação antes que uma eventual MP seja editada.

Esse detalhe é fundamental.

Os clubes estão se movimentando justamente porque a decisão ainda não está publicamente consolidada.

O FUTEBOL QUER DEIXAR DE SER ESPECTADOR DA DISCUSSÃO

Nos últimos anos, as bets passaram rapidamente de novos anunciantes a algumas das empresas mais importantes da economia do futebol.

Agora, diante da possibilidade de mudança das regras, os clubes descobriram que possuir contratos milionários não significa necessariamente possuir lugar garantido na mesa em que a política pública é definida.

O movimento desta semana tem, portanto, um objetivo muito claro:

transformar o futebol de parte afetada em interlocutor da negociação.

Os dirigentes querem defender suas receitas.

O governo analisa os custos sociais e políticos do setor.

Entidades civis pressionam por restrições.

Operadores argumentam que o mercado ilegal pode crescer se a atividade regulamentada for excessivamente limitada.

E milhões de apostadores e torcedores estão no centro dessa disputa.

A discussão sobre as bets entrou em uma nova fase.

Depois do manifesto, o futebol agora tenta trocar o protesto público pela negociação em Brasília.

E somente quando o governo apresentar formalmente sua proposta será possível saber até onde pretende chegar a nova intervenção sobre um mercado que o próprio Estado brasileiro regulamentou há menos de dois anos.

(Da Redação do IGU News)

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