Boca Maldita

DUAS LIÇÕES DE BERTRAND RUSSELL AO FUTURO: BUSCAR OS FATOS E NÃO DEIXAR O ÓDIO VENCER

Aos 86 anos, o filósofo britânico respondeu à última pergunta de uma entrevista histórica da BBC como se estivesse falando a pessoas que assistiriam à gravação mil anos depois. Sua mensagem coube em dois princípios: submeter as crenças aos fatos e compreender que a convivência humana depende de tolerância.

Poucos minutos de uma entrevista gravada há 67 anos continuam circulando pelo mundo com uma atualidade impressionante.

Em 4 de março de 1959, o filósofo, matemático e escritor britânico Bertrand Russell participou do programa Face to Face, da BBC, conduzido pelo jornalista John Freeman e produzido por Hugh Burnett. O episódio original teve aproximadamente 27 minutos. Russell tinha 86 anos e completaria 87 em maio daquele ano.

Já era uma das personalidades intelectuais mais conhecidas do século XX. Nove anos antes, havia recebido o Prêmio Nobel de Literatura de 1950, concedido por sua produção escrita e por sua defesa de ideais humanitários e da liberdade de pensamento.

Mas foi a última pergunta da entrevista que atravessaria gerações.

UMA PERGUNTA PARA DAQUI A MIL ANOS

John Freeman propôs a Russell um exercício extraordinário.

Imagine, disse o entrevistador, que aquela gravação sobrevivesse ao tempo e fosse encontrada por nossos descendentes daqui a mil anos, quase como os Manuscritos do Mar Morto foram encontrados por gerações posteriores.

O que Bertrand Russell gostaria que aquelas pessoas soubessem sobre a vida que ele viveu e sobre aquilo que havia aprendido?

O filósofo não respondeu falando de suas obras, de seus livros, da matemática, do Nobel ou das controvérsias políticas das quais participou.

Escolheu duas ideias.

Uma intelectual.

Outra moral.

A seguir, o IGU News apresenta uma transcrição jornalística em português, fiel ao conteúdo e à sequência da resposta, preservando as ideias de Russell sem acrescentar interpretações ao que ele disse. O texto não pretende reproduzir literalmente a gravação palavra por palavra.

A MENSAGEM DE BERTRAND RUSSELL — EM PORTUGUÊS

JOHN FREEMAN — Em sua última pergunta, o entrevistador convida Russell a imaginar que a gravação seja vista, muitos séculos no futuro, pelos descendentes daqueles que viviam em 1959.

Pergunta então o que ele consideraria importante transmitir a essa geração distante sobre a vida que viveu e as lições que dela retirou.

BERTRAND RUSSELL — Russell responde que gostaria de deixar duas coisas: uma de natureza intelectual e outra de natureza moral.

A LIÇÃO INTELECTUAL

Quando alguém estiver examinando qualquer assunto ou refletindo sobre qualquer filosofia, deveria começar perguntando a si próprio:

quais são os fatos?

E, depois:

qual é a verdade que esses fatos efetivamente sustentam?

Russell adverte que uma pessoa não deve permitir que sua investigação seja desviada simplesmente porque deseja acreditar em determinada coisa.

Também não deveria aceitar uma ideia apenas porque considera que acreditar nela produziria consequências sociais desejáveis.

O critério deveria continuar sendo o mesmo:

observar os fatos e verificar o que eles realmente demonstram.

Essa, diz Russell, é a mensagem intelectual que gostaria de transmitir às futuras gerações.

A LIÇÃO MORAL

A segunda mensagem, afirma ele, é muito mais simples.

“O amor é sábio; o ódio é tolo.”

Russell observa que o mundo estava se tornando progressivamente mais interligado.

Por isso, os seres humanos precisariam aprender a tolerar uns aos outros.

Precisariam também aceitar uma circunstância inevitável da convivência: outras pessoas diriam coisas das quais não gostariam e defenderiam opiniões das quais discordariam.

Não seria possível construir uma sociedade comum exigindo que todos pensassem da mesma maneira.

A convivência dependeria, ao contrário, da capacidade de suportar diferenças.

Para Russell, somente dessa maneira seria possível viver conjuntamente.

E então vem a conclusão que transformou o pequeno trecho em uma das mensagens mais lembradas de sua vida:

se a humanidade quiser “viver junta e não morrer junta”, terá de desenvolver benevolência e tolerância.

Essas qualidades, afirma, são indispensáveis para a continuidade da vida humana no planeta.

1959: UM MUNDO SOB A SOMBRA DA GUERRA NUCLEAR

A resposta ganha uma dimensão ainda maior quando colocada no tempo em que foi pronunciada.

Era 1959.

Estados Unidos e União Soviética estavam mergulhados na Guerra Fria.

A corrida nuclear avançava e a possibilidade de uma guerra capaz de destruir grandes parcelas da humanidade já deixara de ser uma hipótese abstrata.

Russell acompanhava intensamente essa discussão.

Sua preocupação com guerra, violência de massa e armas nucleares ocuparia parte importante dos últimos anos de sua vida. Décadas depois, registros do Nobel ainda destacariam sua longa atuação contra a guerra e contra a ameaça de um conflito nuclear.

É nesse contexto que sua expressão ganha toda a força:

viver juntos ou morrer juntos.

Não era apenas uma metáfora.

Para uma geração que começava a conviver com arsenais nucleares capazes de destruir cidades inteiras, tratava-se de uma possibilidade concreta.

RUSSELL NÃO PEDIU QUE AS PESSOAS ABANDONASSEM SUAS CONVICÇÕES

Há uma sutileza importante em sua mensagem.

Russell não disse que todos deveriam concordar.

Também não pediu que diferenças intelectuais, políticas, filosóficas ou religiosas desaparecessem.

Ao contrário.

Sua proposta partia do reconhecimento de que a discordância continuará existindo.

O que precisava mudar era a maneira de conviver com ela.

Uma sociedade livre pressupõe que alguém possa dizer alguma coisa que outra pessoa considere equivocada, desagradável ou mesmo ofensiva.

A alternativa ao convívio com a divergência seria tentar silenciá-la.

Russell escolheu a tolerância.

E, ANTES DA OPINIÃO, OS FATOS

A primeira metade de sua resposta talvez seja ainda mais atual na era das redes sociais.

Russell estabelece uma ordem bastante simples:

primeiro os fatos.

Depois a conclusão.

Não o contrário.

Ele alerta contra uma tendência profundamente humana: procurar evidências apenas para confirmar aquilo que já desejamos acreditar.

Também rejeita outra tentação: aceitar algo como verdadeiro simplesmente porque seria conveniente que fosse verdadeiro.

Para Russell, nem a vontade pessoal nem uma finalidade política ou social substituem a realidade.

A verdade precisa sobreviver ao exame dos fatos.

DUAS FRASES, UMA MESMA FILOSOFIA

As duas partes da resposta não são independentes.

Elas se completam.

Na dimensão intelectual, Russell propõe humildade diante dos fatos.

Na dimensão moral, propõe humildade diante das outras pessoas.

Em uma, pede que não forcemos a realidade para fazê-la concordar conosco.

Na outra, pede que não exijamos que todos os demais seres humanos concordem conosco para merecer nossa convivência.

Fatos contra o autoengano.

Tolerância contra o ódio.

UM HOMEM QUE JÁ HAVIA VIVIDO QUASE UM SÉCULO

Quando concedeu aquela entrevista, Russell já havia atravessado um período extraordinário da história.

Nascido em 18 de maio de 1872, viveu a transformação industrial da Europa, duas guerras mundiais, o surgimento da física moderna, a revolução da lógica e da matemática, a ascensão e queda de impérios e o início da era nuclear. Morreria em fevereiro de 1970, aos 97 anos.

Era filósofo, lógico e matemático, mas sua produção ultrapassou amplamente essas áreas.

Escreveu sobre educação, liberdade, moral, religião, política, ciência, guerra e sociedade.

O próprio Comitê Nobel registrou, ao conceder-lhe o prêmio de Literatura, sua defesa de ideais humanitários e da liberdade de pensamento.

A PERGUNTA QUE O TEMPO RESPONDEU

John Freeman imaginou que talvez alguém assistisse àquele filme mil anos depois.

Ainda não se passou nem um século.

Mas ocorreu algo que os dois homens diante das câmeras em 1959 dificilmente poderiam imaginar.

A gravação deixou os arquivos da televisão.

Foi digitalizada.

Chegou à internet.

Espalhou-se por redes sociais.

Foi traduzida para dezenas de idiomas.

E passou a ser vista repetidamente por novas gerações em diferentes países.

A pergunta de Freeman, de certa maneira, começou a ser respondida pelo próprio tempo.

O RECADO CONTINUA O MESMO

Mais de seis décadas depois, o mundo é incomparavelmente mais conectado do que aquele descrito por Russell.

Uma opinião publicada em Foz do Iguaçu pode ser lida poucos segundos depois em Londres, Tóquio, Moscou, Washington ou Buenos Aires.

Informações verdadeiras circulam instantaneamente.

Informações falsas também.

Pessoas que jamais se encontrariam estão permanentemente colocadas umas diante das outras.

Nesse ambiente, as duas recomendações deixadas por Russell parecem quase complementares às tecnologias que surgiriam depois de sua morte.

Antes de acreditar: examine os fatos.

Antes de odiar alguém por discordar: aprenda a conviver com a diferença.

Talvez seja essa a razão pela qual os poucos minutos finais de uma entrevista de televisão de 1959 ainda encontram audiência.

John Freeman perguntou o que Bertrand Russell gostaria de dizer às pessoas do futuro.

Nós somos uma parte daquele futuro.

E a resposta chegou até aqui.

CRÉDITOS DO REGISTRO HISTÓRICO

Entrevistado: Bertrand Arthur William Russell
Entrevistador: John Freeman
Programa: Face to Face
Emissora: BBC — British Broadcasting Corporation
Produção: Hugh Burnett
Exibição original: 4 de março de 1959
Duração do episódio original: aproximadamente 27 minutos
Reprodução consultada: registro posteriormente disponibilizado em vídeo na internet.

Crédito sugerido para o vídeo no IGU News:
Imagens: BBC / Face to Face (1959) — entrevista de John Freeman com Bertrand Russell. Reprodução/YouTube.

(Da Redação do IGU News)

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