IA PODE IMPULSIONAR MAIS O PETRÓLEO E GÁS DO QUE A ENERGIA LIMPA, APONTA ESTUDO
Pesquisa estima que ganhos de produtividade proporcionados pela inteligência artificial na exploração de combustíveis fósseis podem superar seus benefícios para fontes renováveis e acrescentar até 1,8 bilhão de toneladas de CO₂ por ano às emissões globais.
A inteligência artificial, frequentemente apresentada como uma ferramenta importante para acelerar a transição energética, pode produzir um efeito climático inverso ao esperado. Um estudo revisado por pares indica que sua aplicação na indústria de petróleo e gás tem potencial para ampliar a produção de combustíveis fósseis em escala superior aos ganhos proporcionados às fontes renováveis.
A explicação está na capacidade da IA de reduzir custos de exploração, identificar reservas, otimizar perfurações e aumentar a recuperação de petróleo e gás em campos existentes. Com maior produtividade, reservas antes economicamente inviáveis podem tornar-se exploráveis, aumentando a oferta e prolongando a utilização dos combustíveis fósseis.
Segundo as estimativas apresentadas no estudo, uma disseminação ampla da inteligência artificial pelo setor energético poderia resultar em acréscimo anual de aproximadamente 500 milhões a 1,8 bilhão de toneladas de dióxido de carbono. O efeito potencial seria significativamente superior às emissões diretamente associadas ao consumo elétrico dos próprios centros de processamento de dados.
A IA também oferece benefícios relevantes às energias renováveis. Sistemas inteligentes conseguem prever vento e incidência solar, antecipar necessidades de manutenção, melhorar o gerenciamento de baterias e otimizar a integração da geração às redes elétricas. Os pesquisadores calculam que essas aplicações poderiam elevar em até 30% a produtividade de determinadas operações solares e eólicas.
O problema estaria na diferença entre os efeitos econômicos dos dois setores. Segundo a pesquisa, para compensar climaticamente cada aumento de 1% na produtividade dos combustíveis fósseis seria necessário obter aproximadamente 4% a 5% de ganho de produtividade nas energias renováveis. Mesmo benefícios capazes de evitar até 500 milhões de toneladas anuais de CO₂ poderiam, portanto, ser anulados pela expansão da produção fóssil.
A indústria já avança nessa direção. Levantamento citado pelos pesquisadores indica que 44% das empresas de petróleo e gás do segmento upstream utilizam inteligência artificial em atividades de exploração, enquanto outros 45% pretendem adotá-la nos próximos três anos. Estimativas do setor também apontam potencial de redução expressiva dos custos de perfuração e aumento das reservas economicamente recuperáveis.
Há ainda uma diferença estrutural. A inteligência artificial pode melhorar a eficiência de parques solares e eólicos, mas não resolve sozinha obstáculos como demora no licenciamento, insuficiência das redes de transmissão, filas para conexão ao sistema elétrico e limitações para armazenamento. No petróleo e gás, por outro lado, ganhos tecnológicos podem converter-se mais diretamente em aumento da produção.
O estudo amplia, assim, uma discussão que vinha concentrada no enorme consumo energético dos data centers. O impacto climático da IA não dependeria apenas da eletricidade necessária para operar computadores e centros de processamento, mas também das atividades econômicas que a tecnologia torna mais eficientes, baratas e lucrativas.
Os autores defendem que políticas públicas destinadas à inteligência artificial e ao clima passem a considerar essas chamadas “emissões possibilitadas”. A conclusão representa um alerta importante: uma tecnologia não é ambientalmente limpa apenas por ser mais eficiente. Seu impacto final depende também da atividade econômica que essa eficiência ajuda a expandir.
(Da Redação do IGU News)




