Manchete 3

OPERAÇÃO HAWALA INVESTIGA REDE DE R$ 100 MILHÕES E APURA POSSÍVEL ELO COM FINANCIADOR DA AL-QAEDA

Ação conduzida no Rio de Janeiro alcançou Foz do Iguaçu e prendeu empresários apontados como operadores financeiros de facções; vínculo com a organização terrorista ainda é tratado pelas autoridades como hipótese sob investigação

Uma investigação sobre lavagem de dinheiro para facções criminosas brasileiras chegou à Tríplice Fronteira e revelou uma possível conexão financeira com um integrante de rede ligada à Al-Qaeda. A apuração, entretanto, ainda não permite afirmar que os investigados tenham financiado diretamente a organização terrorista.

Batizada de Operação Hawala, a ação foi conduzida pela Polícia Civil do Rio de Janeiro e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público fluminense. A investigação atribui ao grupo movimentações superiores a R$ 100 milhões.

OPERAÇÃO ALCANÇOU FOZ DO IGUAÇU

A ofensiva cumpriu mandados no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Entre os presos estão os irmãos de origem libanesa Reda, Yasser e Kassem Zayoun, apontados pela investigação como operadores de uma estrutura financeira utilizada para movimentar recursos de origem ilícita.

Reda Zayoun foi localizado em Foz do Iguaçu, em um imóvel onde estaria hospedado. Yasser e Kassem foram detidos no Estado de São Paulo. Outro investigado identificado como Ali Alfakih também foi preso durante a operação.

Ao todo, a denúncia apresentada pelo Ministério Público alcança 22 pessoas. A operação foi estruturada para cumprir dez mandados de prisão e 37 ordens de busca e apreensão em diferentes estados.

SERVIÇOS FINANCEIROS PARA FACÇÕES

Segundo a investigação, o esquema teria operado como uma espécie de prestadora clandestina de serviços financeiros para organizações criminosas, permitindo a circulação, ocultação e aparente legalização de dinheiro proveniente de atividades ilícitas.

As autoridades associam a estrutura investigada ao Comando Vermelho, ao Terceiro Comando Puro e também ao Primeiro Comando da Capital. Empresas, estabelecimentos comerciais, transferências sucessivas e operadores financeiros teriam sido usados para dificultar a identificação da origem e do destino dos valores.

O nome “Hawala” faz referência a um sistema informal de transferência de valores no qual recursos podem circular entre intermediários sem uma remessa bancária convencional correspondente entre cada origem e destino.

O modelo possui usos legítimos em determinadas regiões do mundo, mas também pode ser explorado por organizações criminosas porque reduz a rastreabilidade formal das operações e pode envolver compensações financeiras realizadas fora do sistema bancário tradicional.

POSSÍVEL CONEXÃO COM REDE DA AL-QAEDA

O ponto mais sensível da investigação surgiu após as autoridades identificarem uma transação ou relação financeira envolvendo a rede apurada e Haytham Ahmad Shukri Ahmad Al-Maghrabi, cidadão egípcio sancionado pelo governo dos Estados Unidos.

Em dezembro de 2021, o Departamento do Tesouro norte-americano classificou Al-Maghrabi como integrante de uma rede de apoio à Al-Qaeda instalada no Brasil. Segundo o órgão, ele chegou ao país em 2015 e manteve contatos e negócios com outros indivíduos ligados ao grupo terrorista.

Na mesma ocasião, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos Estados Unidos sancionou três pessoas e duas empresas que, segundo Washington, prestavam apoio financeiro, material ou operacional à organização terrorista.

A identificação de movimentação entre um dos investigados da Operação Hawala e Al-Maghrabi abriu uma nova frente de apuração. Contudo, o próprio delegado responsável pela investigação declarou que os dados ainda são iniciais e insuficientes para confirmar uma ligação efetiva entre o esquema e a Al-Qaeda.

TRÍPLICE FRONTEIRA NO CENTRO DA APURAÇÃO

A presença de investigados em Foz do Iguaçu e a alegada utilização da região para atividades comerciais e financeiras reforçaram a dimensão transnacional do caso.

A Tríplice Fronteira concentra intenso fluxo diário de pessoas, veículos, mercadorias e moedas entre Brasil, Paraguai e Argentina. Essa movimentação legítima e indispensável à economia regional também impõe desafios adicionais aos sistemas de controle aduaneiro, financeiro e policial.

As investigações apontam que os operadores utilizariam o comércio de produtos eletrônicos e de telefonia como parte da estrutura econômica relacionada ao grupo. A polícia também apura se mercadorias movimentadas na fronteira abasteciam estabelecimentos associados às organizações criminosas.

ALEGAÇÕES SOBRE EMPRESÁRIOS DE CIUDAD DEL ESTE

Publicações paraguaias afirmam que Reda Zayoun seria genro do empresário Ghassan Mohamad Nassar, apresentado nesses relatos como dirigente ou proprietário do Shopping del Este, centro comercial localizado próximo à cabeceira paraguaia da Ponte Internacional da Amizade.

A pesquisa realizada pelo IGU News, porém, não encontrou até o momento documento oficial da Polícia Civil do Rio de Janeiro, do Ministério Público ou do governo dos Estados Unidos que atribua participação criminosa a Ghassan Nassar, ao denominado “Clã Nassar” ou ao próprio Shopping del Este nessa operação.

Também não foi localizada confirmação oficial de que o estabelecimento tenha servido como base logística ou financeira do esquema investigado. Por essa razão, as referências difundidas por veículos e páginas paraguaias devem ser tratadas como alegações ainda não comprovadas pelas fontes institucionais consultadas.

A existência de vínculo familiar ou comercial, isoladamente, não demonstra participação em crime. Qualquer responsabilidade pessoal ou empresarial dependerá de provas, investigação formal, contraditório e eventual decisão judicial.

INVESTIGAÇÃO COMEÇOU NO COMÉRCIO DE CELULARES

A apuração teria começado a partir de denúncias relacionadas à comercialização de acessórios falsificados para telefones celulares no Rio de Janeiro. O avanço das diligências revelou estabelecimentos com movimentações financeiras incompatíveis com a atividade declarada.

Policiais identificaram lojas associadas a pessoas investigadas por ligação com facções, além de transferências e operações que teriam alcançado valores milionários. A análise posterior permitiu ampliar o alcance da apuração e chegar aos operadores financeiros presos na Operação Hawala.

COOPERAÇÃO INTERNACIONAL SERÁ DECISIVA

A possível conexão com pessoa sancionada pelos Estados Unidos pode ampliar a cooperação entre autoridades brasileiras e organismos estrangeiros.

O Departamento do Tesouro afirma que as sanções aplicadas em 2021 tiveram como objetivo impedir que integrantes de redes da Al-Qaeda mantivessem acesso ao sistema financeiro formal e facilitar a cooperação com parceiros internacionais, incluindo o Brasil.

As próximas etapas deverão incluir a análise de equipamentos eletrônicos, documentos, movimentações bancárias, empresas, operações cambiais e comunicações apreendidas.

CASO AINDA ESTÁ EM FASE DE APURAÇÃO

A Operação Hawala revelou uma estrutura financeira de grande alcance e indícios considerados relevantes pelas autoridades. Ainda assim, suspeitas, transações atípicas e vínculos pessoais não equivalem a condenação.

Os investigados têm direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência. A relação direta entre os recursos movimentados e eventual financiamento da Al-Qaeda permanece sem confirmação conclusiva nas informações oficiais e jornalísticas disponíveis.

O Portal IGU News mantém integralmente aberto seu espaço editorial para manifestação oficial das pessoas físicas e jurídicas citadas direta ou indiretamente nesta reportagem e poderá atualizar o conteúdo com esclarecimentos, notas oficiais ou posicionamentos devidamente encaminhados.

(Da Redação do IGU News)

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