MANTEIGA OU MARGARINA: O QUE A CIÊNCIA RECOMENDA PARA A SAÚDE DO CORAÇÃO
Diretrizes atuais indicam que o efeito cardiovascular depende menos do nome do produto e mais do perfil das gorduras, da composição nutricional, da quantidade consumida e do alimento utilizado na substituição.
A ESCOLHA NÃO É TÃO SIMPLES
A dúvida entre manteiga e margarina acompanha consumidores há décadas. Durante muito tempo, a discussão foi apresentada como uma disputa direta entre um produto de origem animal e outro produzido com óleos vegetais.
As evidências atuais, entretanto, indicam que a resposta não deve ser baseada apenas no nome do alimento. É necessário observar o tipo de gordura, a quantidade consumida, o grau de processamento, a presença de gordura trans e o conjunto da alimentação.
A Organização Mundial da Saúde destaca que tanto a quantidade quanto a qualidade das gorduras importam. A orientação é priorizar gorduras insaturadas e limitar as saturadas a menos de 10% das calorias diárias.
O PERFIL DA MANTEIGA
A manteiga é produzida a partir da gordura do leite e apresenta concentração relevante de gorduras saturadas.
O consumo excessivo desse tipo de gordura pode elevar o colesterol LDL, popularmente chamado de colesterol ruim, especialmente quando não ocorre dentro de uma dieta equilibrada.
Isso não significa que a manteiga precise ser eliminada da alimentação de todas as pessoas. O ponto principal é a frequência, a porção e o contexto no qual ela é consumida.
Uma pequena quantidade ocasionalmente utilizada em uma dieta rica em frutas, verduras, legumes, fibras e alimentos minimamente processados possui significado diferente do consumo frequente e elevado.
O PERFIL DAS MARGARINAS
As margarinas atuais costumam ser formuladas predominantemente com óleos vegetais e, dependendo da composição, podem conter proporção maior de gorduras mono e poli-insaturadas.
Essas gorduras são consideradas mais favoráveis ao perfil lipídico quando substituem adequadamente as gorduras saturadas.
A American Heart Association informa que substituir alimentos ricos em gordura saturada por fontes de gorduras insaturadas, como óleos de canola, soja e oliva, pode contribuir para a redução do risco cardiovascular.
Entretanto, nem todas as margarinas são iguais. O consumidor deve conferir a lista de ingredientes, o teor de gorduras saturadas e a eventual presença de gorduras trans.
A IMPORTÂNCIA DA SUBSTITUIÇÃO
Um dos principais pontos das pesquisas é que não basta simplesmente retirar a gordura saturada. É necessário observar o que será colocado em seu lugar.
Substituir gordura saturada por gordura poli-insaturada tende a produzir resultados mais favoráveis do que trocá-la por carboidratos refinados, açúcar ou produtos ultraprocessados.
Uma revisão de ensaios clínicos identificou redução de eventos coronarianos quando parte das gorduras saturadas foi substituída por poli-insaturadas, embora os próprios pesquisadores ressaltem limitações metodológicas nos estudos disponíveis.
A diretriz da OMS também conclui que a substituição de gorduras saturadas por insaturadas reduz o colesterol LDL e está associada a menor risco cardiovascular.
MARGARINA É SEMPRE MELHOR?
Não necessariamente.
Uma margarina formulada com óleos vegetais, baixa quantidade de gordura saturada e ausência de gordura trans pode apresentar perfil lipídico mais favorável do que a manteiga.
Por outro lado, a palavra “margarina” não garante automaticamente que o produto seja nutricionalmente superior.
Existem diferenças consideráveis entre marcas, versões e formulações. Algumas apresentam maior teor de água, sal, aditivos ou gordura saturada.
A decisão deve ser feita pela análise do rótulo, e não apenas pela categoria do produto.
O PROBLEMA HISTÓRICO DA GORDURA TRANS
As margarinas antigas ficaram conhecidas pelo uso de gorduras parcialmente hidrogenadas, importantes fontes industriais de gordura trans.
Esse tipo de gordura está associado ao aumento do LDL, à redução do HDL e à elevação do risco cardiovascular.
As formulações modernas foram modificadas, e muitos produtos atualmente comercializados não utilizam mais óleos parcialmente hidrogenados.
Mesmo assim, é prudente verificar a lista de ingredientes. Expressões como “gordura vegetal parcialmente hidrogenada” indicam a presença de uma fonte que deve ser evitada.
A OMS recomenda que a gordura trans represente menos de 1% das calorias diárias.
O QUE DIZEM AS DIRETRIZES BRASILEIRAS
Diretrizes brasileiras sobre gorduras e dislipidemias relacionam o consumo excessivo de gorduras saturadas e trans à elevação do LDL e ao risco cardiovascular.
Os documentos também indicam que a substituição adequada por gorduras insaturadas pode melhorar o perfil lipídico, especialmente quando integra uma estratégia alimentar mais ampla.
A recomendação, portanto, não é simplesmente consumir margarina de maneira irrestrita, mas reduzir fontes excessivas de gordura saturada e priorizar alimentos com melhor composição nutricional.
E OS FITOESTERÓIS?
Alguns cremes vegetais são enriquecidos com fitoesteróis, compostos encontrados naturalmente em alimentos vegetais.
Essas substâncias podem reduzir a absorção intestinal do colesterol e auxiliar na diminuição do LDL em determinadas pessoas.
Esse efeito, contudo, não transforma o produto em medicamento nem substitui acompanhamento médico, prática de atividade física ou tratamento indicado para colesterol elevado.
Produtos com fitoesteróis costumam ser destinados a consumidores com necessidades específicas e devem ser utilizados conforme as orientações do fabricante e de profissionais de saúde.
Pessoas que usam medicamentos para colesterol não devem interromper ou alterar o tratamento por conta própria.
COMO COMPARAR OS RÓTULOS
Ao escolher entre manteiga e margarina, o consumidor deve observar principalmente:
- quantidade de gordura saturada por porção;
- presença ou ausência de gordura trans;
- lista de ingredientes;
- teor de sódio;
- tamanho real da porção;
- frequência de consumo.
Uma margarina com menor teor de gordura saturada e sem gordura trans poderá ser mais adequada para uso habitual do que a manteiga.
Ainda assim, a melhor escolha dependerá das condições de saúde, da alimentação completa e da quantidade efetivamente consumida.
NÃO EXISTE ALIMENTO ISOLADO MILAGROSO
A prevenção cardiovascular não depende exclusivamente da troca da manteiga pela margarina.
Uma dieta baseada em alimentos naturais ou minimamente processados, vegetais, frutas, leguminosas, grãos integrais, castanhas, sementes e fontes adequadas de proteína exerce influência muito maior sobre a saúde do coração.
Controle do peso, atividade física regular, abandono do tabagismo, sono adequado, controle da pressão arterial e acompanhamento médico também são fundamentais.
Trocar um alimento por outro pode ajudar, mas não compensa uma alimentação globalmente desequilibrada.
O PAPEL DAS MARCAS
Fabricantes de margarinas, como a Becel, apresentam produtos formulados com óleos vegetais, vitaminas, ômega 6 e, em algumas versões, fitoesteróis.
Essas informações devem ser compreendidas como declarações comerciais do fabricante e analisadas a partir da composição registrada no rótulo de cada produto.
A eventual presença de nutrientes não autoriza concluir que o consumo isolado previna doenças cardiovasculares.
A publicidade de alimentos deve ser diferenciada da orientação clínica individual e das evidências sobre padrões alimentares completos.
O QUE A CIÊNCIA RECOMENDA
Para a maioria das pessoas, a ciência atual favorece a substituição de parte das gorduras saturadas por gorduras insaturadas.
Assim, entre uma manteiga rica em gordura saturada e uma margarina moderna, sem gordura trans e produzida predominantemente com óleos vegetais insaturados, a segunda pode oferecer perfil mais favorável ao colesterol.
Isso não significa que toda margarina seja saudável ou que a manteiga seja proibida.
A recomendação mais segura é consumir qualquer uma delas com moderação, comparar rótulos e priorizar fontes naturais de gorduras insaturadas, como azeite, castanhas, sementes, abacate e peixes.
Pessoas com colesterol elevado, diabetes, doenças cardiovasculares, obesidade ou histórico familiar de infarto devem buscar orientação individualizada de médico ou nutricionista.
(Da Redação do IGU News)



