Ciência

GESTAÇÃO: EXPOSIÇÃO A COMPOSTO USADO EM PLÁSTICOS É ASSOCIADA A MAIS SINTOMAS DE TEA E TDAH NA INFÂNCIA

Estudo australiano acompanhou 847 crianças desde a gestação e encontrou associação entre maior exposição pré-natal ao DEHP, alterações epigenéticas no sangue do cordão umbilical e maior intensidade de características relacionadas ao autismo e ao TDAH aos 2 e 4 anos. Pesquisa aponta possível mecanismo biológico, mas não prova que o plastificante cause os transtornos.

A exposição durante a gravidez a uma substância amplamente utilizada para tornar plásticos mais flexíveis pode estar relacionada a alterações no desenvolvimento cerebral das crianças e a uma maior presença de características comportamentais associadas ao Transtorno do Espectro Autista (TEA) e ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

A conclusão vem de uma nova pesquisa publicada em 11 de setembro de 2026 no periódico científico Med, do grupo Cell Press. O estudo analisou dados de 847 crianças participantes do Barwon Infant Study, uma grande coorte australiana acompanhada desde a gestação.

O composto investigado é o DEHP — di(2-etilhexil) ftalato, um plastificante empregado historicamente em inúmeros produtos de PVC e materiais flexíveis.

Ele pode estar presente ou ter sido utilizado em embalagens, revestimentos vinílicos, mangueiras, roupas impermeáveis e outros produtos de consumo. Como os ftalatos não ficam quimicamente presos ao plástico, podem migrar para alimentos, poeira, ar e ambiente, permitindo exposição por ingestão, inalação e contato.

O QUE OS PESQUISADORES ENCONTRARAM

Os cientistas mediram metabólitos relacionados ao DEHP na urina das mulheres durante o final da gestação.

Depois do nascimento, analisaram o DNA presente no sangue do cordão umbilical para verificar possíveis alterações de metilação, um dos mecanismos epigenéticos que ajudam a regular a atividade dos genes sem modificar a sequência do DNA.

As crianças foram posteriormente avaliadas aos 2 e 4 anos, utilizando instrumentos destinados a identificar características comportamentais associadas ao autismo e ao TDAH.

O resultado indicou que níveis mais elevados de exposição pré-natal ao DEHP estavam relacionados a maior intensidade de sintomas de desatenção, hiperatividade e dificuldades ligadas à interação social.

Os efeitos apareceram de forma mais clara entre os meninos do que entre as meninas, segundo os pesquisadores.

ESTUDO NÃO SIGNIFICA QUE DEHP “CAUSE AUTISMO”

Esse é o ponto mais importante para interpretar corretamente a pesquisa.

Os pesquisadores encontraram uma associação estatística e um possível mecanismo biológico, mas isso não permite afirmar que uma criança desenvolverá autismo ou TDAH porque sua mãe teve contato com DEHP durante a gravidez.

TEA e TDAH são condições complexas e multifatoriais.

Genética, desenvolvimento cerebral, fatores ambientais e múltiplas interações biológicas participam de sua ocorrência.

Além disso, o estudo avaliou sintomas e características comportamentais na primeira infância, não significa que todas as crianças analisadas tenham recebido diagnóstico clínico de TEA ou TDAH.

Embora os autores tenham utilizado modelos estatísticos de “mediação causal”, o desenho da pesquisa continua sendo observacional e não equivale a um experimento controlado capaz de provar causa e efeito.

531 GENES CHAMARAM A ATENÇÃO DOS CIENTISTAS

A parte mais inovadora da pesquisa está justamente na tentativa de entender como a exposição poderia influenciar o neurodesenvolvimento.

Em vez de examinar genes isoladamente, a equipe analisou quase 1 milhão de pontos de metilação do DNA.

Foi identificado um conjunto de 531 genes cujos padrões de metilação variavam conjuntamente em associação com a exposição ao DEHP.

Esses genes estavam enriquecidos em mecanismos ligados a células neurais e incluíam genes anteriormente associados ao autismo e ao TDAH, como FOXP1, SHANK2 e PLXNB1.

Também foram identificados alvos relacionados a receptores hormonais, incluindo receptores de estrogênio e glicocorticoides, compatíveis com o conhecimento de que determinados ftalatos apresentam atividade de desregulação endócrina.

UMA POSSÍVEL “ASSINATURA EPIGENÉTICA”

Os pesquisadores descrevem esse conjunto de alterações como uma espécie de assinatura epigenética da exposição ao DEHP.

Em termos simples, o DNA continuava contendo as mesmas letras e genes, mas algumas regiões apresentavam mudanças na forma como esses genes poderiam ser regulados.

A equipe encontrou evidências de que essa assinatura presente ao nascimento estaria no caminho entre a exposição durante a gravidez e as características comportamentais registradas posteriormente.

Segundo o estudo, diferentes análises estimaram que alterações epigenéticas poderiam mediar entre 21% e 80% da associação observada, dependendo do desfecho e do modelo utilizado.

RESULTADOS FORAM TESTADOS EM OUTRAS AMOSTRAS

Para aumentar a robustez dos achados, os pesquisadores não se limitaram às crianças da coorte principal.

Partes dos resultados de metilação também foram verificadas em conjuntos independentes de amostras de sangue e de tecido cerebral post-mortem.

Essas validações envolveram grupos menores — 66 amostras de sangue e 40 de cérebro — e ajudaram a reforçar a hipótese de que as alterações encontradas possuem relevância biológica.

Ainda assim, os próprios autores defendem novas pesquisas e replicações em outras populações.

O QUE É O DEHP

O DEHP integra o grupo dos ftalatos, substâncias utilizadas há décadas na indústria para deixar materiais plásticos mais maleáveis.

Uma característica importante é que essas moléculas não ficam permanentemente ligadas ao polímero.

Com o tempo, podem migrar do material para o meio ao redor.

É por isso que a exposição humana pode ocorrer por diversas fontes e não apenas quando uma pessoa “encosta em plástico”.

Estudos anteriores da própria coorte australiana mostraram metabólitos de ftalatos em praticamente todas as amostras de urina analisadas de mulheres grávidas, indicando que a exposição ambiental é muito disseminada.

ALIMENTOS TAMBÉM PODEM SER UMA VIA DE EXPOSIÇÃO

A alimentação é considerada uma das principais rotas de contato com determinados ftalatos.

Isso pode ocorrer durante etapas de processamento, armazenamento, transporte ou pelo contato do alimento com determinados materiais.

Pesquisa anterior realizada com gestantes do mesmo Barwon Infant Study encontrou níveis mais elevados de alguns ftalatos associados ao consumo de determinados alimentos e produtos domésticos.

Os pesquisadores ressaltaram, entretanto, que simplesmente declarar evitar plástico durante a gravidez não esteve associado a concentrações menores de ftalatos na urina, mostrando como a exposição pode ser difícil de controlar individualmente.

Esse dado é importante para evitar uma mensagem de culpa às gestantes: a exposição está amplamente presente no ambiente e depende também de regulação industrial e políticas de saúde pública.

EUROPA JÁ CONSIDERA O DEHP SUBSTÂNCIA DE ALTA PREOCUPAÇÃO

A preocupação com o DEHP não começou com o estudo publicado agora.

A Agência Europeia de Produtos Químicos (ECHA) classifica o DEHP como tóxico para a reprodução e como substância com propriedades de desregulação endócrina.

A substância integra a lista europeia de Substances of Very High Concern — SVHC, ou substâncias de alta preocupação.

A União Europeia já restringe DEHP, DBP, DIBP e BBP em grande variedade de produtos.

Também existem limitações específicas para brinquedos, artigos infantis, produtos têxteis e diversos materiais de consumo.

Essas regras se baseiam principalmente em evidências anteriores sobre reprodução, desenvolvimento fetal e efeitos hormonais.

O novo estudo acrescenta agora uma possível relação com neurodesenvolvimento infantil.

GRÁVIDAS E CRIANÇAS ESTÃO ENTRE OS GRUPOS MAIS SENSÍVEIS

A ECHA considera mulheres grávidas e crianças pequenas entre as populações especialmente vulneráveis aos efeitos dos ftalatos.

Determinados compostos dessa classe podem interferir no sistema hormonal e afetar desenvolvimento reprodutivo.

A novidade do trabalho australiano está em oferecer evidências de que o período pré-natal pode ser particularmente importante também para processos relacionados ao cérebro.

O cérebro fetal passa por intensa organização celular, formação de conexões e regulação hormonal durante a gestação.

Alterações ambientais nesse período são estudadas justamente porque podem produzir efeitos que se manifestam apenas meses ou anos depois.

A PESQUISA VEM DE UMA COORTE ACOMPANHADA HÁ MAIS DE UMA DÉCADA

O Barwon Infant Study começou a recrutar famílias na região de Victoria, na Austrália, entre 2010 e 2013.

A coorte nasceu com mais de mil crianças e acompanha fatores ambientais, imunológicos, nutricionais, genéticos e sociais desde a gravidez.

Isso permite aos pesquisadores comparar informações coletadas durante a gestação com resultados observados muitos anos depois.

É uma vantagem importante em relação a estudos nos quais adultos precisam lembrar retrospectivamente daquilo a que estiveram expostos anos antes.

O ESTUDO NÃO MUDA DIAGNÓSTICO DE TEA OU TDAH

Outro cuidado necessário: os resultados não alteram critérios médicos de diagnóstico.

Não existe atualmente teste de DEHP que determine se uma criança desenvolverá TEA ou TDAH.

Também não existe um exame de metilação desses 531 genes que tenha uso clínico rotineiro para prever esses transtornos.

O diagnóstico de TEA e TDAH continua sendo clínico, baseado no desenvolvimento, comportamento e critérios médicos específicos.

O novo trabalho pertence ao campo da pesquisa sobre fatores ambientais e mecanismos biológicos.

NÃO HÁ RAZÃO PARA PÂNICO COM QUALQUER OBJETO DE PLÁSTICO

Plástico é uma categoria enorme de materiais.

Nem todo plástico contém DEHP.

Nem todos os produtos que historicamente utilizaram ftalatos continuam utilizando as mesmas formulações.

E a quantidade que pode migrar de um produto varia conforme composição, temperatura, tempo de contato, gordura presente nos alimentos e condições de uso.

Portanto, a descoberta não significa que todo contato com plástico durante a gravidez represente risco elevado de TEA ou TDAH.

REDUZIR EXPOSIÇÃO PODE SER PRUDENTE, MAS NÃO É POSSÍVEL ELIMINÁ-LA COMPLETAMENTE

Os pesquisadores defendem políticas capazes de diminuir a presença de ftalatos com preocupação toxicológica em produtos de uso cotidiano.

Para gestantes que desejam reduzir a exposição, uma abordagem prudente é evitar aquecer alimentos em recipientes plásticos quando não houver indicação específica de uso para altas temperaturas, priorizar recipientes de vidro ou aço quando isso for prático, reduzir consumo frequente de alimentos muito processados e observar informações de segurança dos produtos.

Mas esses cuidados não eliminam totalmente os ftalatos do ambiente.

Estudos da própria coorte mostram que a exposição ocorre por múltiplas fontes e que medidas individuais isoladas podem ter efeito limitado.

A discussão, portanto, não deve ser transformada em responsabilidade exclusiva da mulher grávida.

UM DOS AUTORES PEDE REVISÃO DA EXPOSIÇÃO PERMITIDA

O pesquisador Sam Tanner, autor principal do estudo, afirmou que os resultados oferecem uma possível explicação biológica para associações que já apareciam em trabalhos anteriores.

Segundo ele, crianças com maior exposição pré-natal apresentaram uma assinatura epigenética distinta no nascimento e mais características relacionadas ao autismo e TDAH posteriormente.

Para os pesquisadores, os achados reforçam a necessidade de discutir novamente níveis considerados aceitáveis de exposição durante a gravidez.

MAS CIÊNCIA PRECISA DE REPLICAÇÃO

Um estudo isolado, mesmo publicado em periódico revisado por pares, não encerra uma questão científica.

Os pesquisadores precisarão verificar se os mesmos padrões aparecem em crianças de outras regiões, etnias, hábitos alimentares e contextos socioeconômicos.

Também será necessário acompanhar os participantes por mais tempo.

Sintomas identificados aos 2 ou 4 anos não necessariamente permanecem com a mesma intensidade posteriormente, e sua relação com diagnósticos clínicos futuros deverá ser investigada.

Ensaios que consigam reduzir a exposição durante a gestação também podem ajudar a testar de maneira mais direta se diminuir ftalatos produz mudanças mensuráveis no desenvolvimento infantil.

ESTUDO ABRE UMA JANELA PARA ENTENDER AMBIENTE E NEURODESENVOLVIMENTO

O resultado mais importante talvez não seja estabelecer um único produto químico como explicação para TEA ou TDAH — porque a pesquisa não faz isso.

O estudo mostra algo mais amplo.

Fatores ambientais presentes durante a gestação podem deixar marcas mensuráveis nos mecanismos que regulam genes do bebê e essas alterações podem estar relacionadas ao desenvolvimento neurológico nos primeiros anos de vida.

É uma área de pesquisa ainda em construção, mas com consequências potencialmente importantes para saúde pública.

MENSAGEM CENTRAL É DE PRECAUÇÃO, NÃO DE CULPA

Para mulheres que estiveram expostas a plástico durante a gravidez, o estudo não deve ser interpretado como previsão de que seus filhos terão autismo ou TDAH.

A exposição aos ftalatos é disseminada.

Os transtornos possuem forte componente genético e uma combinação complexa de fatores.

E, principalmente, a pesquisa identificou probabilidades e associações em uma população, não destinos individuais.

O que os dados sugerem é que determinadas exposições químicas merecem ser levadas mais a sério durante uma fase particularmente sensível do desenvolvimento humano.

O DEHP já estava sob restrições por seus possíveis efeitos hormonais e reprodutivos.

Agora, um estudo com centenas de famílias acrescenta uma nova preocupação: a possibilidade de que a exposição durante a gestação também interfira nos mecanismos epigenéticos envolvidos na formação e funcionamento do cérebro infantil.

A resposta científica ainda exigirá novos estudos.

Mas o alerta para pesquisadores, indústria e autoridades regulatórias já está colocado.

(Da Redação do IGU News)

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