YANOMAMI: 1.138 MORTES SOB LULA E A RÉGUA MIDIÁTICA QUE MUDOU
Bolsonaro foi associado repetidamente ao termo “genocida” após a revelação da crise. Sob o atual governo, os registros oficiais somam 1.138 mortes entre 2023 e 2025, enquanto persistem violência, malária, dependência aérea, estruturas precárias e uma reforma interrompida na principal casa de apoio.
A CRISE NÃO TERMINOU COM A TROCA DE GOVERNO
A tragédia vivida pelo povo Yanomami não começou em janeiro de 2023 e tampouco terminou com a posse de um novo presidente.
Aquela crise foi resultado de um processo acumulado durante anos: crescimento do garimpo ilegal, destruição ambiental, contaminação dos rios, insegurança alimentar, expansão da malária, violência armada, estruturas sanitárias deficientes e incapacidade do Estado de manter presença permanente em uma área remota e extensa.
Durante o governo Jair Bolsonaro, especialmente entre 2019 e 2022, esses problemas se agravaram. Polos de saúde foram fechados ou passaram a funcionar parcialmente, profissionais encontraram dificuldades para permanecer no território e milhares de garimpeiros avançaram sobre áreas indígenas.
Há, portanto, motivos concretos para responsabilizar politicamente a administração daquele período por suas ações, omissões e prioridades.
O que não existe é justificativa para que a gravidade dos fatos seja medida de uma forma quando o presidente é Bolsonaro e de outra quando o presidente é Luiz Inácio Lula da Silva.
O povo Yanomami não pertence a nenhum partido. Sua sobrevivência não pode ser transformada em instrumento eleitoral, em arma contra um governo e em assunto secundário durante o governo seguinte.
O COMPARATIVO OFICIAL DAS MORTES
O relatório oficial mais recente do Ministério da Saúde apresenta uma série revisada segundo a qual foram registrados:
| ANO | GOVERNO | ÓBITOS REGISTRADOS | COMPARAÇÃO COM 2022 |
|---|---|---|---|
| 2022 | Jair Bolsonaro | 343 | base comparativa |
| 2023 | Lula | 435 | aumento de 26,8% |
| 2024 | Lula | 347 | aumento de 1,2% |
| 2025 | Lula | 356 | aumento de 3,8% |
O dado referente a 2022 foi apresentado pelo Ministério da Saúde em relatório extraído em dezembro de 2023. Naquele documento, 2023 aparecia inicialmente com 363 mortes e havia a advertência de que as informações estavam sujeitas a revisão.
O Informe 09, publicado posteriormente pelo próprio Ministério, consolidou o número de 2023 em 435 mortes, registrou 347 em 2024 e 356 em 2025.
Em termos objetivos, o primeiro ano de Lula registrou 92 mortes a mais do que o último ano de Bolsonaro.
A elevação foi de 26,8%.
Em 2024, houve uma redução expressiva em relação ao recorde de 2023. Mesmo assim, o ano terminou com 347 mortes, quatro a mais do que as 343 contabilizadas em 2022.
Em 2025, o total voltou a subir, chegando a 356 óbitos — treze a mais do que no último ano da administração Bolsonaro.
SÃO 1.138 MORTES EM TRÊS ANOS
Somados, os três primeiros anos completos do atual governo registraram:
- 435 mortes em 2023;
- 347 mortes em 2024;
- 356 mortes em 2025;
- 1.138 mortes no total.
A média foi de aproximadamente 379 mortes por ano.
Essa média anual é cerca de 10,6% superior ao total de 343 mortes registrado em 2022, último ano de Bolsonaro.
Isso não significa que Lula tenha provocado pessoalmente cada morte. Da mesma maneira, a existência de 343 óbitos em 2022 não demonstrava, por si só, que Bolsonaro tivesse pessoalmente causado cada um deles.
A responsabilidade presidencial, nos dois casos, é de natureza política e administrativa: planejamento, prioridades, orçamento, fiscalização, logística, segurança, execução e resultado das políticas públicas.
A mesma regra precisa valer para os dois governos.
2023 FOI PIOR TAMBÉM PROPORCIONALMENTE
A comparação não muda quando se considera aproximadamente o tamanho da população atendida.
Bases sanitárias mencionadas em estudo do UNICEF apontam cerca de 31 mil Yanomami e Ye’kwana no território. O levantamento registra uma população de aproximadamente 31.007 pessoas na base utilizada para 2023.
Utilizando números populacionais aproximados:
- em 2022, as 343 mortes corresponderiam a cerca de 11 óbitos por mil habitantes;
- em 2023, as 435 mortes corresponderiam a aproximadamente 14 óbitos por mil habitantes.
Isso significa uma elevação estimada de quase 28% na taxa bruta de mortalidade entre o último ano de Bolsonaro e o primeiro de Lula.
Portanto, 2023 não foi pior apenas no número absoluto. Também foi pior proporcionalmente.
As divergências entre o cadastro sanitário, as atualizações do recenseamento e os dados do IBGE impedem o cálculo de uma taxa demográfica perfeitamente fechada. Mas não anulam a conclusão central: o aumento de 343 para 435 mortes foi grande demais para ser explicado apenas por uma pequena variação populacional.
A QUEDA DE 2024 NÃO AUTORIZA COMEMORAÇÃO
É correto reconhecer que o total caiu de 435 mortes em 2023 para 347 em 2024.
Também é correto reconhecer a redução em causas específicas. Segundo o Ministério da Saúde, houve diminuição importante nos óbitos relacionados à malária, à desnutrição e às infecções respiratórias em determinados períodos.
Mas apresentar somente a queda percentual entre 2023 e 2024 pode produzir uma impressão enganosa.
O ponto de partida foi o pior ano da série recente: 435 mortes.
Depois desse recorde, o total recuou para 347 — praticamente o mesmo patamar absoluto de 2022, ano usado para fundamentar parte das acusações mais severas contra a administração Bolsonaro.
Em seguida, subiu novamente para 356 em 2025.
O próprio Ministério da Saúde descreveu o comportamento como uma queda importante depois de 2023, seguida de relativa estabilidade em um nível inferior.
Inferior ao recorde de 2023 não significa satisfatório.
Menor do que o pior momento não significa crise resolvida.
O ALERTA DEMOGRÁFICO DOS BEBÊS
A situação também apresenta um sinal preocupante relacionado à formação das novas gerações.
Estimativa divulgada pelo Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde de Roraima indicou que, em 2023, existiam apenas 890 crianças com menos de um ano entre aproximadamente 30 mil indígenas no território.
Segundo o documento, esse era o menor contingente de bebês desde 2018, com exceção de 2021, durante a pandemia.
Esse dado não permite afirmar que morreram mais Yanomami do que nasceram. Crianças menores de um ano existentes em determinada data não correspondem exatamente ao total de nascidos vivos durante todo o período.
Também existem dificuldades de registro, deslocamentos internos, subnotificação e diferenças entre as bases populacionais.
Ainda assim, o indicador constitui um alerta sério.
Uma população numericamente pequena, submetida a mortalidade elevada e com redução expressiva no contingente de bebês enfrenta riscos que não podem ser avaliados apenas por números absolutos.
A crise afeta o presente e também ameaça a capacidade de formação de novas gerações.
O QUE O GOVERNO LULA EFETIVAMENTE MELHOROU
Uma avaliação honesta não pode apagar os avanços alcançados depois de 2023.
O governo federal declarou emergência sanitária, retomou estruturas que estavam fechadas, ampliou a presença estatal, reforçou operações contra o garimpo ilegal e aumentou os recursos destinados à política indígena.
Dados governamentais apontam forte redução dos alertas e das novas áreas de garimpo. A tendência de queda também foi identificada por organizações independentes, embora com metodologias e percentuais diferentes.
Em 2023, o DSEI Yanomami informou ter aplicado R$ 220,6 milhões, valor descrito pelo Ministério da Saúde como 2,5 vezes superior à média histórica. O relatório também registra outros recursos destinados a ações emergenciais e transferências para o sistema de saúde em Roraima.
Em âmbito nacional, levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos mostrou que os recursos autorizados para a saúde indígena passaram da faixa de R$ 1,8 bilhão em 2022 para aproximadamente R$ 2,2 bilhões em 2023.
No exercício de 2025, o Ministério do Planejamento registrou R$ 219,5 milhões empenhados e R$ 210,5 milhões liquidados especificamente na ação de promoção, proteção e recuperação da saúde no DSEI Yanomami. O documento também aponta R$ 1,7 milhão liquidado em saneamento básico.
Houve, portanto, aumento de recursos e expansão da atuação pública.
Isso precisa ser reconhecido.
Mas orçamento maior não é salvo-conduto político.
Quanto mais recursos existem, maior é a obrigação de explicar por que centenas de mortes continuam ocorrendo anualmente e por que estruturas essenciais permanecem incompletas ou paralisadas.
A SITUAÇÃO REAL EM 2026
Relatório aprovado pela Subcomissão Permanente dos Povos Indígenas Yanomami do Senado, após diligência em Roraima, concluiu que a população ainda enfrenta problemas graves relacionados à saúde, à segurança, à alimentação, à educação e ao acesso a políticas públicas.
O documento reconhece que houve redução significativa da presença do garimpo ilegal. Ao mesmo tempo, registra:
- circulação de armas de fogo;
- conflitos entre grupos;
- dificuldades logísticas;
- insegurança alimentar;
- interrupção de atividades escolares;
- limitações de acesso a benefícios sociais;
- persistência da malária e de outras doenças;
- problemas relacionados à violência e ao consumo abusivo de álcool.
Não se trata, portanto, da mesma configuração encontrada no início de 2023.
O garimpo recuou e a estrutura pública cresceu.
Mas a crise não desapareceu. Ela mudou parcialmente de forma e continua produzindo vulnerabilidade, doença, violência e mortes.
98% DO TERRITÓRIO DEPENDE DE TRANSPORTE AÉREO
A logística continua sendo um dos maiores obstáculos à proteção da população Yanomami.
Auditoria do Tribunal de Contas da União informa que o DSEI Yanomami utiliza transporte aéreo em aproximadamente 98% de seu território.
As remoções são caras e sobrecarregam a Casa de Saúde Indígena e as redes hospitalares estadual e municipal. Muitas delas decorrem de doenças que poderiam ser tratadas ou prevenidas mais cedo, caso as estruturas locais funcionassem adequadamente.
Na prática, quase tudo depende de aeronaves:
medicamentos, vacinas, profissionais, combustível, materiais, alimentos, equipamentos e pacientes em estado grave.
Chuvas intensas, estiagens, pistas precárias, falta de aeronaves e custos operacionais podem interromper o fluxo.
Quando um voo não acontece, não ocorre apenas um atraso burocrático. Uma equipe pode deixar de chegar, um remédio pode não ser entregue e um paciente pode perder a possibilidade de remoção a tempo.
Essa dependência já era conhecida durante o governo Bolsonaro.
Continua conhecida durante o governo Lula.
E ainda não foi estruturalmente resolvida.
A CASA DE APOIO OPERA NO LIMITE E A REFORMA FOI INTERROMPIDA
A Casa de Saúde Indígena Yanomami, em Boa Vista, é uma peça central da rede assistencial.
Ela recebe indígenas removidos de aldeias para tratamento, recuperação e acompanhamento. Muitos permanecem no local por períodos prolongados, acompanhados de familiares.
O relatório do Senado informa que a unidade opera próxima ao limite de sua capacidade e passa por uma reforma interrompida por problemas contratuais.
A necessidade de reforma da Casai não é nova.
Documento do Senado produzido ainda em 2023 já descrevia como urgente a melhoria de iluminação, saneamento, alojamento e estrutura física, mencionando inclusive a possibilidade de substituição por uma instalação mais robusta.
Três anos depois, o problema ainda aparece em relatório oficial, agora acompanhado da informação de que a obra foi interrompida.
Isso é falha administrativa concreta.
Não basta anunciar investimento. É preciso licitar corretamente, fiscalizar o contrato, enfrentar os obstáculos, retomar a obra e entregar uma estrutura funcional.
A VIOLÊNCIA TAMBÉM MUDOU O PERFIL DA CRISE
O relatório do Senado chama atenção para o crescimento de atendimentos relacionados a causas externas, como ferimentos por armas de fogo, acidentes, violência interpessoal e abuso de álcool.
A circulação de armas, associada aos anos de presença garimpeira, agravou conflitos e ampliou riscos para indígenas, servidores e profissionais de saúde.
Em julho de 2026, o agente indígena de saúde Geovane Yanomami foi morto a tiros na região de Xitei, dentro da Terra Indígena Yanomami.
As informações disponíveis apontam que o episódio ocorreu em contexto de conflito local. As circunstâncias, os responsáveis e as motivações devem ser investigados, sem atribuições antecipadas.
Mas um agente de saúde assassinado dentro do território é uma demonstração objetiva de que a presença estatal continua vulnerável.
Não se pode dizer que a crise terminou quando aqueles encarregados de cuidar da população trabalham sob risco de morte.
BOLSONARO FOI CHAMADO DE GENOCIDA
Quando a dimensão da crise foi revelada, em janeiro de 2023, o termo “genocídio” passou rapidamente a ocupar discursos políticos, títulos, colunas, comentários e reportagens.
Lula afirmou que o que havia visto em Roraima era mais do que uma crise humanitária e classificou o cenário como genocídio e crime premeditado.
O então ministro da Justiça, Flávio Dino, declarou que havia indícios fortíssimos da materialidade do crime.
O Supremo Tribunal Federal determinou que órgãos como a Procuradoria-Geral da República, o Ministério Público Militar, o Ministério da Justiça e a Polícia Federal apurassem suspeitas envolvendo autoridades do governo Bolsonaro.
Investigar é correto.
Apurar possíveis crimes é obrigação do Estado.
Mas investigação não equivale a condenação.
Genocídio possui definição jurídica específica e exige, entre outros elementos, demonstração da intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso.
No material público consultado, não foi localizada decisão judicial definitiva condenando Bolsonaro pelo crime de genocídio especificamente em razão da crise Yanomami.
Ainda assim, muito antes de qualquer conclusão judicial, a palavra passou a ser aplicada diretamente ao ex-presidente.
A IMPRENSA NÃO APENAS NOTICIOU A ACUSAÇÃO
Parte dos veículos limitou-se a registrar declarações, investigações e acusações formuladas por autoridades ou organizações indígenas.
Isso faz parte da atividade jornalística e não significa necessariamente concordância com a classificação.
Entretanto, houve também textos que adotaram o termo como conclusão editorial.
A Folha de S.Paulo publicou o artigo “Os culpados do genocídio Yanomami” e uma coluna intitulada “Genocídio Yanomami é monstruosidade criminal e política de Bolsonaro”, na qual o ex-presidente foi diretamente chamado de genocida.
Texto reproduzido pelo Brasil de Fato sustentou que, depois da tragédia, chamar Bolsonaro de genocida seria uma “obrigação dos vivos”.
Metrópoles, CartaCapital e diversos outros portais publicaram matérias, análises e conteúdos nos quais a palavra apareceu associada ao governo anterior, ora como acusação de terceiros, ora como enquadramento assumido por articulistas.
Não foi uma expressão periférica.
Ela se tornou uma das principais chaves narrativas da crise.
LEVANTAMENTO AMOSTRAL: 46 REFERÊNCIAS CONTRA 8
Em levantamento amostral realizado para esta análise, foram pesquisadas páginas jornalísticas indexadas contendo combinações dos termos “Yanomami”, “genocida”, “genocídio”, “Bolsonaro”, “governo Bolsonaro”, “Lula” e “governo Lula”.
Foram excluídos comentários de leitores, resultados sem relação direta com o tema, conteúdos exclusivamente partidários, duplicações técnicas e publicações avulsas em redes sociais.
O resultado mínimo verificável encontrado foi:
| CRITÉRIO | BOLSONARO/GOVERNO BOLSONARO | LULA/GOVERNO LULA |
|---|---|---|
| Páginas jornalísticas com “genocida” ou “genocídio” no contexto Yanomami | ao menos 46 | ao menos 8 |
| Referência no título ou na linha fina | ao menos 24 | ao menos 5 |
| Texto em que articulista ou veículo endossa claramente a classificação | ao menos 9 | nenhuma ocorrência inequívoca equivalente nos grandes portais pesquisados |
A associação apareceu, portanto, em aproximadamente 5,75 vezes mais páginas envolvendo Bolsonaro.
Nos títulos e linhas finas, a proporção encontrada foi de aproximadamente 4,8 para 1.
Esses números não constituem um censo completo da imprensa brasileira. Mecanismos de busca não indexam todo o conteúdo produzido, algumas páginas deixam de aparecer com o tempo e diversos portais mantêm materiais em ambientes fechados.
O levantamento representa um piso amostral, não um total absoluto.
Ainda assim, a diferença é grande demais para ser ignorada.
COM LULA, A EXPRESSÃO FICOU CONCENTRADA NA OPOSIÇÃO
No caso do atual presidente, a maioria das ocorrências localizadas foi publicada por veículos de linha crítica ao governo, como Gazeta do Povo e Revista Oeste.
A Gazeta publicou títulos como:
“Lula vai ser chamado de genocida?”, reproduzindo questionamento da senadora Damares Alves;
“Ciro Nogueira ironiza narrativa de Lula sobre genocídio de Yanomamis por Bolsonaro”;
e texto segundo o qual Lula teria piorado números anteriormente classificados como genocidas.
A Revista Oeste noticiou a denúncia apresentada pelo deputado Gustavo Gayer ao Tribunal Penal Internacional e reproduziu a declaração do parlamentar classificando Lula como genocida.
Nesses casos, porém, a palavra apareceu principalmente como:
- declaração de opositor;
- provocação política;
- pergunta retórica;
- denúncia apresentada por parlamentar;
- crítica à diferença de tratamento.
Isso é diferente de um veículo ou articulista assumir diretamente que Lula praticou genocídio.
Não foi localizado, nos principais portais pesquisados, equivalente claro ao texto que afirmou ser obrigação da imprensa chamar Bolsonaro de genocida.
Também não foi encontrado editorial de grande circulação defendendo que Lula fosse punido pelo crime de genocídio Yanomami.
O RETRATO DAS REDES NO INÍCIO DE 2023
O levantamento da plataforma Torabit ajuda a compreender a força da narrativa formada no início do atual governo.
Entre 1º de janeiro e 10 de fevereiro de 2023, a empresa analisou 769.398 menções sobre os Yanomami em redes sociais e blogs.
Bolsonaro apareceu em aproximadamente 126 mil publicações, enquanto Lula foi citado em cerca de 98 mil.
Segundo a Torabit:
- 57% das menções a Bolsonaro eram negativas, associando-o ao garimpo ilegal e ao genocídio Yanomami;
- 76% das publicações que citavam Lula eram positivas, relacionando-o à preservação ambiental, ao combate ao garimpo e à ajuda aos indígenas;
- o nome de Bolsonaro apareceu em 19,2% das menções do bloco que reunia informações sobre os Yanomami, denúncias de descaso e críticas ao garimpo.
A pesquisa retratou um momento específico: o início de 2023, quando o novo governo acabava de assumir e imagens dramáticas revelavam a dimensão da crise.
Esse contexto ajuda a explicar a diferença inicial de percepção.
Mas também demonstra como se construiu uma divisão narrativa muito clara:
Bolsonaro foi associado à causa da tragédia.
Lula foi associado à solução.
Os anos seguintes mostraram que a realidade era mais complexa.
A INVERSÃO PARCIAL DA NARRATIVA EM 2024
Em 2024, levantamento da FGV Comunicação Rio identificou mudança relevante no debate digital.
A pesquisa analisou postagens no X, Facebook, Instagram e TikTok. No X, grupos de direita concentraram 36% das interações, enquanto grupos progressistas somaram 37,5%.
A FGV concluiu que a tentativa de classificar Lula como genocida pela persistência da crise Yanomami tornou-se majoritária entre perfis conservadores, com forte atuação de parlamentares alinhados a Bolsonaro, influenciadores e veículos como Revista Oeste e O Antagonista.
O estudo também mostrou que a narrativa ficou especialmente concentrada no campo conservador do X.
No Facebook e no Instagram, lideranças indígenas, organizações ambientais, instituições governamentais e veículos tradicionais ou progressistas mantiveram maior destaque.
A acusação contra Lula, portanto, ganhou força política nas redes, mas não foi incorporada pelo jornalismo geral com a mesma amplitude observada no caso de Bolsonaro.
A DIFERENÇA NÃO FOI APENAS NUMÉRICA
O problema não está somente na quantidade de publicações.
A diferença mais relevante aparece na forma de enquadramento.
Em relação a Bolsonaro, foram encontrados:
- artigos adotando diretamente a expressão genocida;
- textos afirmando existir um genocídio Yanomami;
- colunas exigindo punição;
- manchetes relacionando seu governo ao crime;
- ampla reprodução de acusações feitas por Lula, ministros, parlamentares e organizações;
- investigações apresentadas como possível responsabilização penal.
Em relação a Lula, predominaram:
- notícias sobre críticas da oposição;
- questionamentos sobre a ausência da mesma cobrança;
- denúncias formuladas por parlamentares;
- matérias em veículos declaradamente críticos ao governo;
- análises sobre a mudança do debate nas redes sociais.
A grande imprensa noticiou problemas do governo Lula. Houve reportagens sobre mortes, malária, garimpo, dificuldades administrativas e falhas na resposta federal.
Portanto, não existe silêncio absoluto.
O que existe é uma diferença clara de linguagem, intensidade, frequência e personalização da responsabilidade.
O CONTEXTO DE 2023 PRECISA SER CONSIDERADO
A assimetria não pode ser analisada sem reconhecer o contexto.
Em janeiro de 2023, o país viu imagens de crianças gravemente desnutridas, denúncias de abandono, avanço recorde do garimpo, unidades fechadas e relatos acumulados de lideranças indígenas.
O novo governo decretou emergência. Instituições abriram investigações. Autoridades afirmaram haver indícios de crimes graves.
Era natural e necessário que o assunto recebesse cobertura ampla.
Também é legítimo que os resultados de um governo sejam avaliados considerando a situação herdada, o tempo necessário para reconstrução das estruturas e as dificuldades logísticas excepcionais do território.
Mas contexto não pode servir como imunidade permanente.
Depois de três anos completos, 1.138 mortes, aumento orçamentário, operações federais, reforma interrompida, persistência da malária, circulação de armas e dependência aérea, o governo atual precisa ser submetido a escrutínio tão rigoroso quanto aquele aplicado ao anterior.
UM PESO E DUAS MEDIDAS
A expressão correta é um peso e duas medidas.
Há um único problema — a proteção e a sobrevivência do povo Yanomami — medido por duas réguas políticas e midiáticas diferentes.
Quando Bolsonaro governava, a mortandade foi personalizada.
O presidente foi chamado diretamente de genocida antes de uma conclusão judicial definitiva.
Quando Lula assumiu, a abordagem predominante passou a enfatizar a herança recebida, os investimentos, a redução do garimpo e a melhora de determinados indicadores.
Esses avanços são reais e merecem registro.
Mas também são reais:
- as 435 mortes de 2023;
- as 347 de 2024;
- as 356 de 2025;
- as 1.138 mortes acumuladas;
- a reforma interrompida da Casai;
- a dependência aérea em praticamente todo o território;
- a persistência de doenças;
- a circulação de armas;
- os conflitos;
- a violência contra indígenas e profissionais;
- a redução preocupante do número de bebês registrada em 2023.
Não é coerente transformar números semelhantes ou superiores em prova de genocídio durante um governo e, durante o seguinte, tratá-los apenas como dificuldades de execução de uma política pública.
COBRAR LULA NÃO ABSOLVE BOLSONARO
O reconhecimento da assimetria não inocenta o governo Bolsonaro.
A expansão do garimpo, o fechamento de estruturas, a desorganização da assistência, o descumprimento de determinações judiciais e os alertas ignorados precisam continuar sendo investigados.
A administração anterior deve responder pelo que fez e pelo que deixou de fazer.
Da mesma maneira, cobrar o atual governo não significa negar que houve redução do garimpo, aumento de recursos e melhora de indicadores específicos.
Significa apenas recusar a aplicação de uma régua política variável.
Se o presidente da República deve responder politicamente por mortes, desassistência e falhas administrativas, essa responsabilidade existe independentemente de seu partido.
A PALAVRA GENOCÍDIO NÃO PODE SER ARMA ELEITORAL
Genocídio é um dos crimes mais graves previstos pelo direito nacional e internacional.
Não pode ser reduzido a rótulo de campanha, insulto político ou recurso de manchete.
Quando utilizado sem conclusão judicial, o termo precisa ser atribuído corretamente a quem o empregou: autoridade, organização, parlamentar, articulista ou denunciante.
A imprensa deve informar a existência de acusações e investigações.
Mas precisa distinguir:
- acusação;
- suspeita;
- investigação;
- opinião;
- constatação administrativa;
- responsabilidade política;
- responsabilidade criminal;
- condenação definitiva.
A crise Yanomami é grave o suficiente para dispensar exageros e manipulações.
Os fatos, por si mesmos, já exigem providências.
A MESMA RÉGUA PRECISA VALER PARA TODOS
O povo Yanomami não pode voltar às manchetes apenas quando sua tragédia serve para atacar um adversário político.
Não pode ser símbolo de indignação em janeiro de 2023 e nota lateral em 2026.
Não pode receber promessas de emergência enquanto obras essenciais permanecem paradas.
Não pode depender quase integralmente de aeronaves sem que o país desenvolva uma solução logística permanente.
Não pode assistir à circulação de armas, à morte de agentes de saúde e à persistência de doenças enquanto governos disputam a narrativa sobre quem fez mais ou menos.
A conclusão é inequívoca:
a crise se agravou gravemente durante o governo Bolsonaro; o governo Lula ampliou recursos, reduziu o garimpo e melhorou determinados indicadores; mas a mortalidade permaneceu elevada, alcançou o maior número recente em 2023 e somou 1.138 mortes nos três primeiros anos da atual administração.
A crise não acabou.
E a responsabilidade de fiscalizá-la não pode depender do nome do presidente.
Quando a imprensa usa a palavra genocídio contra um governo e adota linguagem consideravelmente mais moderada diante de números iguais ou superiores no governo seguinte, cabe questionar sua coerência.
Isso não é absolvição de Bolsonaro.
Também não é condenação criminal antecipada de Lula.
É a exigência elementar de que fatos semelhantes sejam submetidos à mesma medida.
Sem proteção ideológica.
Sem exploração eleitoral.
Sem um peso e duas medidas.
CONTRADITÓRIO
O Portal IGU News mantém integralmente aberto seu espaço editorial para manifestação oficial de todas as pessoas físicas e jurídicas citadas direta ou indiretamente neste editorial.
Eventuais esclarecimentos, notas oficiais, correções documentadas ou posicionamentos encaminhados serão analisados e publicados com o devido destaque editorial.
As referências a genocídio reproduzem acusações, investigações, declarações públicas e conteúdos opinativos, não representando afirmação de condenação criminal definitiva pelo Portal IGU News.
(Da Redação do IGU News)




