VOTO BRASIGUAIO E SEGURANÇA DA FRONTEIRA GANHAM PESO NAS ELEIÇÕES EM FOZ
Com 206,9 mil eleitores aptos em 2026, Foz do Iguaçu entra no pleito sob pressão por maior controle da fronteira e com uma questão histórica ainda sem resposta oficial: quantos brasileiros residentes no Paraguai continuam votando no município.
FOZ NO CENTRO DO DEBATE ELEITORAL
A segurança das fronteiras deixou de ser uma pauta restrita às forças policiais e passou a integrar o centro do debate eleitoral brasileiro.
Em Foz do Iguaçu, a discussão ganha dimensão especial. A cidade está conectada diariamente ao Paraguai e à Argentina por fluxos de pessoas, mercadorias, trabalho, turismo, serviços públicos e relações familiares.
A fronteira terrestre brasileira supera 16 mil quilômetros, atravessa 11 estados e alcança dez países. A faixa fronteiriça reúne quase 600 municípios e cerca de 11 milhões de moradores.
Nesse território, a fragilidade do controle pode facilitar tráfico de drogas e armas, contrabando, lavagem de dinheiro, circulação de integrantes de facções e outras atividades criminosas com reflexos em todo o país.
206 MIL ELEITORES EM 2026
Foz do Iguaçu terá 206.944 pessoas aptas a votar nas eleições gerais de 2026, o sétimo maior eleitorado do Paraná.
O primeiro turno está marcado para 4 de outubro. Caso necessário, o segundo turno será realizado em 25 de outubro.
O número confirma o crescimento do colégio eleitoral iguaçuense, que passou da faixa de aproximadamente 166 mil eleitores em 2016 para mais de 204 mil em 2024.
Nas eleições de 2018, Foz possuía 178.270 eleitores. Em 2020, eram aproximadamente 183 mil. Em 2022, o cadastro aproximou-se de 199 mil, chegando a 204.343 aptos em 2024.
Esse crescimento, contudo, não pode ser atribuído automaticamente aos brasiguaios. O cadastro público da Justiça Eleitoral não apresenta uma categoria que identifique quantos eleitores inscritos em Foz residem efetivamente no Paraguai.
QUEM SÃO OS ELEITORES BRASIGUAIOS
No contexto eleitoral da fronteira, o termo brasiguaio costuma designar brasileiros e descendentes que vivem no Paraguai, mas preservam vínculos familiares, profissionais, patrimoniais ou sociais com o Brasil.
A legislação não exige, necessariamente, que o eleitor resida de forma permanente no município onde vota.
O domicílio eleitoral possui conceito mais amplo que o domicílio civil. Ele pode ser mantido quando há vínculo residencial, afetivo, familiar, profissional, comunitário ou de outra natureza que justifique a escolha do município.
Assim, um brasileiro que vive no Paraguai, mas trabalha, estuda, mantém família ou outros vínculos legítimos em Foz, pode, em determinadas circunstâncias, conservar legalmente seu domicílio eleitoral na cidade.
A irregularidade ocorre quando a inscrição é mantida sem vínculo real ou mediante informação falsa, situação sujeita à revisão e ao cancelamento pela Justiça Eleitoral.
DUAS FORMAS DE VOTAR
O brasileiro residente no Paraguai pode transferir o título para a Zona Eleitoral do Exterior.
Nesse caso, votará no consulado ou em outra representação diplomática apenas para presidente e vice-presidente da República.
Quem conserva regularmente o domicílio em Foz pode atravessar a fronteira e votar em todos os cargos: presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual nas eleições gerais.
Nos pleitos municipais, esse eleitor também participa da escolha de prefeito e vereadores, o que torna o tema especialmente sensível para a política local.
O QUE MOSTRAM AS ÚLTIMAS CINCO ELEIÇÕES
O recorte das eleições de 2016, 2018, 2020, 2022 e 2024 revela crescimento contínuo do eleitorado de Foz, mas não permite separar o voto de moradores da cidade daquele depositado por brasileiros que vivem no Paraguai.
Em 2016, a eleição municipal registrou cerca de 166 mil eleitores aptos. O pleito foi marcado posteriormente pela necessidade de eleição suplementar para a prefeitura.
Em 2018, Foz possuía 178.270 eleitores e concedeu ampla maioria a Jair Bolsonaro no segundo turno presidencial. O então candidato recebeu 99.545 votos, equivalentes a 70,3% dos válidos na cidade.
Em 2020, aproximadamente 183 mil pessoas estavam aptas a votar. Chico Brasileiro foi reeleito com 54.252 votos, apenas 2.657 à frente de Paulo Mac Donald, que recebeu 51.595.
A margem estreita daquele pleito demonstra como grupos de alguns milhares de eleitores podem adquirir importância decisiva em uma eleição municipal.
Isso não prova que o voto brasiguaio tenha definido o resultado, mas evidencia por que candidatos historicamente demonstram interesse nesse segmento.
A ELEIÇÃO ATÍPICA DE 2020
A votação de 2020 ocorreu durante a pandemia e registrou 42.279 ausências, o equivalente a cerca de 23% do eleitorado.
A possibilidade de justificar a ausência pelo e-Título e a perda de interesse de parte dos eleitores residentes no Paraguai reduziram a movimentação tradicional na Ponte da Amizade.
Brasiguaios ouvidos naquele período relataram que campanhas de candidatos de Foz no interior paraguaio haviam diminuído.
Também foi observado aumento das transferências para o cadastro eleitoral no exterior, que restringe o voto às eleições presidenciais.
EM 2022, DOIS FLUXOS DE ELEITORES
Nas eleições de 2022, cerca de 4.600 brasileiros fizeram cadastro para votar no Consulado-Geral do Brasil em Ciudad del Este.
Esses eleitores puderam votar somente para presidente. Outros, com domicílio eleitoral regularmente mantido no Brasil, atravessaram a Ponte da Amizade para votar em Foz e participar da escolha de todos os cargos.
Não existe dado oficial público que indique quantas pessoas cruzaram a fronteira especificamente para votar naquele ano.
No segundo turno, Foz registrou 104.235 votos para Bolsonaro e 53.259 para Lula. Houve ainda 36.982 abstenções e 4.223 votos brancos ou nulos.
Esses números revelam o comportamento geral do município, mas não autorizam atribuir a preferência política dos brasiguaios a qualquer candidatura.
2024 E O PESO NAS ELEIÇÕES LOCAIS
Em 2024, Foz possuía 204.343 eleitores aptos. Compareceram 154.298 pessoas, enquanto 50.045 deixaram de votar.
O General Silva e Luna foi eleito prefeito com 73.522 votos, seguido por Paulo Mac Donald, com 47.775.
Na disputa para a Câmara, candidatos foram eleitos com votações individuais entre pouco mais de 2 mil e 3,7 mil votos entre os nomes mais votados.
Isso demonstra que mesmo um contingente relativamente pequeno de eleitores transfronteiriços pode influenciar a composição do Legislativo municipal, embora não seja possível medir essa participação com os dados disponíveis.
UM NÚMERO QUE O TSE NÃO SEPARA
A principal conclusão da pesquisa é clara: não existe série estatística oficial das últimas cinco eleições que informe quantos brasiguaios votaram em Foz.
Os resultados são totalizados por município, zona, seção e candidato, mas não classificam o eleitor pelo país em que reside de fato quando seu domicílio eleitoral permanece no Brasil.
Reportagens locais e registros históricos confirmam o fluxo em dias de eleição, mas apresentam relatos, estimativas ou dados consulares, e não uma contagem individualizada dos votos depositados em Foz.
Portanto, qualquer afirmação de que existam dez, vinte ou trinta mil brasiguaios votando atualmente no município deve ser tratada como estimativa até que seja acompanhada de documentação verificável.
TRANSPORTE IRREGULAR É CRIME
A participação de eleitores com domicílio legítimo em Foz é regular. O que não é permitido é financiar ou organizar transporte de eleitores em troca de apoio político.
A fronteira já registrou episódios de contratação de carros, vans e ônibus para levar eleitores do Paraguai até a Ponte da Amizade, além de pagamento de hospedagem antes das votações.
Em 2008, a Polícia Federal deteve seis brasiguaios transportados em uma caminhonete supostamente financiada por candidato. Naquele período, a Justiça Eleitoral informou ter cancelado 14 mil títulos irregulares desde 2002.
Esses fatos pertencem ao histórico da fronteira e não podem ser utilizados para presumir irregularidade sobre todo brasileiro residente no Paraguai que compareça legalmente às urnas.
FOZ POSSUI UMA ESTRUTURA ESTRATÉGICA
Foz abriga o Centro Integrado de Operações de Fronteira, criado para reunir informações e fortalecer a cooperação entre órgãos responsáveis pelo combate ao crime organizado transnacional.
O centro passou a operar 24 horas por dia, facilitando a troca de dados entre instituições de segurança, fiscalização e defesa.
A experiência de Foz é apontada como modelo de integração entre diferentes órgãos e representantes de países vizinhos. O desafio eleitoral é aplicar essa mesma capacidade de inteligência à prevenção de compra de votos, transporte irregular e falsidade de domicílio.
O DESAFIO DE 2026
A eleição de 2026 colocará novamente milhares de pessoas em circulação entre Ciudad del Este e Foz do Iguaçu.
A fiscalização precisará diferenciar o exercício legítimo da cidadania transfronteiriça das práticas que possam configurar crime eleitoral.
Candidatos também deverão apresentar propostas concretas para segurança, inteligência, tecnologia, cooperação internacional e proteção das aduanas.
A fronteira não pode ser lembrada apenas durante a campanha.
Com 206.944 eleitores, Foz possui força política suficiente para cobrar uma política nacional permanente, capaz de proteger a população sem criminalizar os vínculos humanos, familiares e econômicos que formam a Tríplice Fronteira.
CONTRADITÓRIO
O Portal IGU News mantém aberto seu espaço editorial para manifestações, esclarecimentos e posicionamentos das pessoas, órgãos e instituições mencionados direta ou indiretamente nesta reportagem.
(Da Redação do IGU News)




