DEPUTADO VERMELHO PROPÕE FREIO À PROPAGANDA DE BETS
Projeto apresentado pelo deputado paranaense equipara a publicidade das apostas às restrições impostas ao cigarro, prevê bloqueio em redes públicas e coloca a prevenção ao vício no centro do debate nacional.
UMA INICIATIVA DE PROTEÇÃO SOCIAL
O deputado federal Vermelho apresentou uma proposta que enfrenta um dos fenômenos mais preocupantes da atualidade: a expansão massiva da publicidade de apostas esportivas e seus possíveis impactos sobre jovens, famílias e pessoas vulneráveis.
O Projeto de Lei nº 4.770/2026 foi apresentado à Câmara dos Deputados em 23 de julho. A proposta altera a Lei nº 9.294/1996 para submeter a propaganda das apostas de quota fixa às restrições aplicadas aos produtos de tabaco.
A medida não pretende proibir a atividade legalizada. Seu objetivo declarado é impedir que as plataformas sejam divulgadas de maneira permanente e indiscriminada em televisões, celulares, redes sociais, transmissões esportivas e outros meios.
Essa distinção é importante. O projeto preserva a liberdade individual do adulto, mas questiona a exposição contínua da população a campanhas que associam apostas a diversão, sucesso, esporte e enriquecimento rápido.
O QUE PREVÊ O PROJETO
O texto apresentado por Vermelho estabelece a proibição da propaganda comercial das apostas de quota fixa em todo o território nacional, aplicando ao setor as limitações já existentes para a publicidade do cigarro.
A proposta acrescenta um novo dispositivo à Lei nº 9.294/1996 e determina que o Ministério da Saúde desenvolva normas programáticas e informativas voltadas à prevenção e à redução dos danos relacionados às apostas.
Outro ponto relevante é a proibição do acesso a plataformas de bets por meio da infraestrutura de internet dos órgãos públicos.
Pela proposta, repartições e instituições públicas deverão adotar mecanismos de bloqueio e exibir avisos informando que seus computadores e redes não podem ser utilizados para apostas.
A lógica é simples: assim como o ambiente público possui restrições ao consumo de produtos nocivos, sua estrutura digital não deve servir como instrumento para a prática de apostas durante o expediente ou com recursos da administração.
SAÚDE PÚBLICA ACIMA DA PUBLICIDADE
A iniciativa acerta ao retirar a discussão exclusivamente do campo econômico e colocá-la também no âmbito da saúde pública.
A regulamentação das apostas não elimina a necessidade de enfrentar transtornos, endividamento, conflitos familiares e demais consequências que podem surgir quando a atividade deixa de ser recreativa e passa a assumir caráter compulsivo.
Na justificativa do projeto, Vermelho menciona nota técnica do Ministério da Saúde segundo a qual 25,9% da população com mais de 14 anos já realizou alguma aposta ao longo da vida.
O documento legislativo também destaca que adolescentes são especialmente sensíveis à publicidade vinculada a celebridades, atletas, influenciadores e personalidades do entretenimento.
A nota técnica do Ministério da Saúde recomenda que profissionais identifiquem precocemente padrões de apostas, prejuízos financeiros, endividamento, danos às relações pessoais e riscos relacionados à saúde mental.
A FORÇA DOS ÍDOLOS E INFLUENCIADORES
As campanhas das bets não vendem apenas uma plataforma. Elas vendem a impressão de que apostar é um comportamento normal, socialmente valorizado e inseparável do esporte.
Quando um atleta, ex-jogador, apresentador ou influenciador recomenda uma empresa, sua credibilidade pessoal é transferida para o produto anunciado.
Essa influência torna-se ainda mais delicada quando alcança crianças e adolescentes, públicos que podem não compreender integralmente as probabilidades de perda ou o modelo econômico das plataformas.
A proposta de Vermelho enfrenta exatamente esse ambiente de estímulo constante, no qual o cidadão acompanha uma partida de futebol e recebe sucessivos convites para apostar antes, durante e depois do jogo.
A EXPERIÊNCIA BEM-SUCEDIDA CONTRA O CIGARRO
A comparação com a propaganda do cigarro é coerente do ponto de vista preventivo.
Durante décadas, produtos de tabaco foram associados a atletas, artistas, liberdade, elegância e sucesso. A mudança desse cenário exigiu uma política pública firme, capaz de separar a liberdade de consumo da promoção comercial indiscriminada.
A restrição publicitária não eliminou a atividade econômica relacionada ao tabaco, mas reduziu sua presença no cotidiano da população e impediu que celebridades continuassem apresentando o produto como símbolo de prestígio.
Vermelho transporta esse princípio para o mercado das apostas: não proibir a escolha do adulto, mas impedir que uma atividade potencialmente compulsiva domine o esporte e os meios de comunicação.
PROTEÇÃO À INFÂNCIA E À JUVENTUDE
O mérito central da proposta está na prevenção.
É mais responsável impedir que crianças e adolescentes sejam condicionados desde cedo a relacionar futebol, competição e diversão com apostas financeiras do que tentar reparar futuramente os danos causados pelo vício.
A publicidade ostensiva cria familiaridade. Mesmo quem ainda não pode abrir legalmente uma conta passa anos assistindo a ídolos, clubes e campeonatos apresentarem as bets como parte natural da experiência esportiva.
Quando esse jovem alcança a idade exigida pelas plataformas, já conhece as marcas, os slogans, os aplicativos e as promessas difundidas durante sua formação.
A iniciativa do deputado paranaense reconhece que a proteção da juventude não pode depender apenas de avisos rápidos inseridos ao final das campanhas.
IMPACTOS SOBRE AS FAMÍLIAS
O projeto também chama atenção para consequências que ultrapassam o apostador.
A justificativa menciona endividamento, perda de emprego, rompimento de vínculos familiares, problemas de saúde física e mental e risco aumentado de comportamento suicida entre os danos relacionados ao transtorno do jogo.
O texto registra ainda a estimativa de que cada caso de dependência pode afetar outras pessoas do ambiente familiar, profissional, educacional e social do apostador.
Essa dimensão coletiva demonstra que o problema não deve ser tratado apenas como escolha privada.
Quando salários são comprometidos, dívidas se acumulam e relações familiares são destruídas, os efeitos alcançam cônjuges, filhos, empregadores, serviços de saúde e toda a rede de proteção social.
CORAGEM PARA ENFRENTAR INTERESSES ECONÔMICOS
A proposta também possui relevância política porque contraria um setor dotado de grande capacidade financeira e crescente presença no esporte brasileiro.
As plataformas patrocinam clubes, competições, programas, transmissões e personalidades públicas. A restrição publicitária, portanto, deverá enfrentar resistência de empresas e segmentos que dependem dessas receitas.
É justamente diante desse cenário que a iniciativa de Vermelho ganha importância.
Ao apresentar o projeto, o parlamentar sinaliza que a defesa da saúde pública, da infância e da estabilidade das famílias deve prevalecer sobre a conveniência comercial de qualquer setor.
Em pronunciamento na Câmara, o deputado afirmou que pretende lutar contra a propaganda das bets em diferentes meios de comunicação e defendeu tratamento semelhante ao aplicado aos anúncios de cigarro.
PROJETO AINDA PRECISA AVANÇAR
O PL nº 4.770/2026 está no início da tramitação e ainda deverá passar pela análise da Câmara dos Deputados.
O texto poderá receber despacho para comissões, pareceres, emendas e eventuais alterações antes de chegar à votação. Também dependerá do Senado e da sanção presidencial para ser convertido em lei.
Portanto, a apresentação não significa que a proibição já esteja em vigor.
Representa, contudo, a abertura de um debate necessário e uma oportunidade para que o Congresso avalie os limites da publicidade de produtos capazes de causar dependência e graves prejuízos sociais.
UMA RESPOSTA QUE O BRASIL ESPERAVA
Ao propor limites equivalentes aos aplicados ao tabaco, Vermelho oferece uma resposta concreta ao crescimento descontrolado da exposição publicitária das apostas.
A medida preserva a atividade legal, mas reconhece que legalização não pode significar promoção irrestrita.
O Brasil já demonstrou, no enfrentamento ao tabagismo, que políticas preventivas exigem coragem, planejamento e capacidade de resistir a fortes interesses econômicos.
O Projeto de Lei nº 4.770/2026 coloca o deputado Vermelho entre os parlamentares que decidiram enfrentar o problema por meio de uma solução legislativa objetiva.
Sua aprovação dependerá do Congresso. O mérito inicial, porém, é inequívoco: transformar uma preocupação crescente de milhões de famílias em uma proposta concreta de proteção social.
CONTRADITÓRIO
O Portal IGU News mantém aberto seu espaço editorial para manifestações, esclarecimentos e posicionamentos das pessoas, empresas e instituições mencionadas direta ou indiretamente nesta reportagem.
(Da Redação do IGU News)




