A experiência de sentir que Deus está ausente durante a depressão não é algo estranho à Bíblia — pelo contrário, é um tema recorrente que valida o que você sente, em vez de descartar isso. Os próprios autores bíblicos clamam por causa do silêncio de Deus, falam da dor de gritar sem obter resposta (Sl 22:1–2) e expressam o medo de que Deus os tenha esquecido, escondido o rosto e os deixado lutando com o desespero (Sl 13).
O que chama atenção é que esses lamentos não são vistos como fracasso espiritual — eles aparecem na Bíblia como orações verdadeiras e legítimas. O salmista se lembra de tempos de alegria e comunhão com Deus e contrasta essas lembranças com a angústia do presente (Sl 42), mostrando bem a confusão que a depressão provoca. A distância entre a experiência passada e o vazio atual só aumenta a dor. Ainda assim, mesmo no meio dessa escuridão, os escritores se agarram à convicção de que a compaixão de Deus continua e que sua presença permanece, mesmo quando os sentimentos dizem o contrário (Sl 42).
É importante notar que a resposta bíblica não é negar a dor, mas firmar a esperança no caráter de Deus, apesar das evidências emocionais apontarem para outra direção (Sl 42). Deus fala por meio do profeta Isaías sobre um esconder-se temporário — descrevendo o abandono como algo breve, não definitivo, e colocando isso dentro de uma compaixão eterna, não de rejeição (Is 54:7–8). Isso muda a forma de enxergar a distância que você sente: ela pode ser real como experiência emocional, mas não reflete a postura real de Deus em relação a você.
A depressão distorce a percepção. Ela faz você acreditar que ausência é abandono, que silêncio é indiferença. Mas o padrão bíblico mostra que Deus pode estar realmente presente, mesmo quando parece profundamente distante. Sentir essa distância não anula a proximidade dele, assim como as perguntas angustiadas dos salmistas não significavam que Deus de fato os havia abandonado. Dar nome a esse abismo — em vez de fingir que ele não existe — talvez seja o primeiro passo honesto em direção à reconexão.
(Augustus Nicodemus Gomes Lopes* é pastor presbiteriano e ex-chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo. Ampliou sua popularidade com o avanço do movimento reformado no Brasil. Hoje, é pastor na Esperança Bible Presbyterian Church, nos EUA. Bacharelou-se em teologia pelo Seminário Presbiteriano do Norte, concluiu Mestrado em Novo Testamento na Universidade Reformada da África do Sul, na cidade de Potchefstroom, após o qual fez doutorado em Interpretação Bíblica no Westminster Theological Seminary, em Glenside, Pensilvânia, Estados Unidos, e complementação no Seminário de Kampen, nos Países Baixos)

