Rochas espaciais de médio porte são o maior desafio da ciência atual; apesar do sucesso de testes de desvio, a Terra ainda não possui um sistema de defesa totalmente operacional contra asteroides.
Durante uma conferência da Associação Americana para o Avanço da Ciência, a Nasa revelou que cerca de 15 mil asteroides com diâmetro em torno de 140 metros — tamanho suficiente para destruir uma metrópole inteira — ainda não foram localizados ou identificados pelos sistemas de monitoramento terrestre.
A frase da Dra. Kelly Fast, oficial de Defesa Planetária da Nasa, resume o tamanho do desafio: “Não nos preocupamos tanto com os grandes asteroides dos filmes, porque sabemos onde eles estão”.
A corrida contra o relógio e o NEO Surveyor
Para fechar essa lacuna de segurança, a Nasa aposta todas as suas fichas no lançamento do telescópio espacial Near-Earth Object (NEO) Surveyor, previsto para 2027. Diferente dos observatórios terrestres, que dependem da luz visível e do céu noturno, o Surveyor utilizará assinaturas térmicas para “enxergar” o calor emitido pelos asteroides escuros.
A meta é ambiciosa: catalogar mais de 90% dos objetos perigosos na próxima década. Como destacou Nancy Chabot, coordenadora de defesa planetária, a detecção precoce é o único fator que torna o desvio tecnicamente viável. Sem anos de antecedência, mesmo a tecnologia mais avançada seria inútil.
O legado da missão DART e o futuro da defesa
A missão DART (Double Asteroid Redirection Test) foi um marco ao colidir uma nave contra um asteroide e alterar sua órbita com sucesso. No entanto, os cientistas são unânimes: a Terra ainda é, no momento, praticamente indefesa. Transformar um teste bem-sucedido em uma rede de proteção permanente requer investimento contínuo e cooperação internacional, transformando a astronomia de uma ciência contemplativa em uma ferramenta de sobrevivência da espécie.
“A capacidade de desviar um asteroide é tecnicamente possível, mas ainda não está pronta para uso imediato. Localizar a ameaça com antecedência é crucial.”, Nancy Chabot, afirma coordenadora de defesa planetária da Nasa.
Tecnologia infravermelha
A detecção de objetos próximos à Terra (NEOs, na sigla em inglês) depende tradicionalmente da luz visível refletida. No entanto, muitos dos asteroides mais perigosos são compostos de materiais ricos em carbono, tornando-os tão escuros quanto o carvão. O NEO Surveyor supera essa limitação ao deixar de procurar por “brilho” e passar a buscar por “calor”.
1. O princípio da assinatura térmica
Diferente dos telescópios ópticos, que operam de forma semelhante ao olho humano, o NEO Surveyor utiliza sensores de infravermelho médio.
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Absorção vs. reflexão: asteroides escuros (com baixo albedo) absorvem a maior parte da luz solar que recebem, em vez de refleti-la.
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Reemissão de calor: essa energia absorvida é reemitida de volta ao espaço na forma de radiação infravermelha (calor). Mesmo um asteroide “negro” brilha intensamente quando observado em comprimentos de onda térmicos.
2. Detecção no espectro infravermelho
O telescópio operará em dois canais sensíveis ao calor, permitindo identificar o tamanho exato dos objetos.
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Cálculo de diâmetro: no espectro visual, um objeto pequeno e brilhante pode parecer idêntico a um objeto grande e escuro. No infravermelho, a quantidade de calor emitida está diretamente ligada à área da superfície. Isso permite que a Nasa calcule o tamanho real do asteroide com uma precisão impossível para telescópios terrestres.
3. Posicionamento estratégico (ponto de Lagrange L1)
O NEO Surveyor não orbitará a Terra, mas sim o ponto L1 (Lagrange 1), localizado entre a Terra e o Sol.
4. Criogenia passiva e estabilidade
Para detectar o calor fraco de um asteroide distante, o próprio telescópio precisa estar extremamente frio.
O NEO Surveyor utiliza um design de resfriamento passivo, com escudos solares gigantescos que mantêm os sensores em temperaturas próximas de $-240$°C ($33$ K). Sem esse resfriamento, o próprio calor do telescópio “cegaria” os sensores infravermelhos.




