O jornalismo brasileiro, que durante décadas cultivou a imagem de fiscal do poder e guardião da esfera pública, encontra-se hoje em avançado estado de decomposição moral e intelectual. A crise que o atravessa já não é apenas de credibilidade, mas de identidade. É evidente que ainda subsistem profissionais e veículos de comunicação que resistem a essa lógica, mas, no conjunto, grandes conglomerados de comunicação abandonaram a função clássica da imprensa livre e converteram-se em aparelhos ideológicos de militância política, operando não como observadores críticos da vida pública, mas como atores engajados na disputa direta pelo poder.
Essa transformação tornou-se particularmente evidente nas últimas semanas. O espetáculo oferecido por essas redações diante do colapso aberto da Justiça brasileira configura um dos episódios mais grotescos da história recente da chamada “imprensa profissional”. Jornalistas e comentaristas, autoproclamados defensores da democracia, reagiram com indignação cuidadosamente seletiva ao expor fissuras de um sistema judicial que eles próprios ajudaram a legitimar. Agora, fingem surpresa e passam a denunciá-lo, como se não fossem também responsáveis pela degradação institucional que ajudaram a construir.
A destruição institucional
Essa degradação não ocorreu por acaso nem surgiu repentinamente. Ela foi cuidadosamente construída ao longo de anos, pavimentada por decisões políticas e judiciais justificadas sob o rótulo fraudulento da “defesa da democracia”. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações da Operação Lava Jato contra Luiz Inácio Lula da Silva, sob os argumentos formais de incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba e suspeição do juiz Sergio Moro. O efeito concreto dessas decisões foi a anulação das condenações dos principais protagonistas do maior escândalo de corrupção da história do país.
O esquema do Petrolão desviou bilhões de reais da Petrobras, envolvendo empreiteiras como Odebrecht e OAS e uma vasta rede de partidos, operadores financeiros e agentes públicos. Nada disso foi negado nos autos. Nada disso foi refutado no mérito. Ainda assim, a elite jornalística brasileira celebrou a anulação das condenações como se fosse um triunfo civilizacional, ignorando deliberadamente o impacto devastador dessas decisões sobre a confiança nas instituições e sobre o combate sistêmico à corrupção.
A imprensa deixou de ser fiscal do arbítrio para se tornar sua assessoria de imprensa
Não se tratou de neutralidade jornalística nem de análise técnica. Militantes de redação apoiaram ativamente a anulação da Lava Jato e a anulação das condenações dos envolvidos, ao mesmo tempo em que se engajaram na reabilitação política e no retorno ao poder de um líder socialista condenado em três instâncias e preso por 580 dias. Editorialistas e colunistas apresentaram essas decisões como “correção de abusos” e “restauração do Estado de Direito”, omitindo o fato de que a Lava Jato recuperou mais de R$ 20 bilhões aos cofres públicos e revelou uma engrenagem de corrupção envolvendo o núcleo do sistema político brasileiro.
Ao mesmo tempo, esses mesmos veículos passaram a justificar, normalizar e aplaudir a criminalização sistemática de opositores políticos, viabilizada por censura, perseguição judicial e pela subversão aberta de garantias constitucionais básicas: devido processo legal, ampla defesa, presunção de inocência e liberdade de expressão. A imprensa deixou de ser fiscal do arbítrio para se tornar sua assessoria de imprensa.
Seletividade e autoritarismo
Os exemplos dessa seletividade são abundantes. O deputado Daniel Silveira foi preso e posteriormente condenado a oito anos de reclusão em razão de declarações e críticas dirigidas ao Supremo Tribunal Federal, um precedente grave de criminalização da palavra política. Setores expressivos da imprensa celebraram a sentença como “necessária para a democracia”. Paralelamente, dezenas de formadores de opinião e ativistas vinculados à direita tiveram contas bloqueadas, conteúdos removidos e perfis apagados por ordens monocráticas, sem contraditório prévio, sem acusação formal e sem prazo definido. Inquéritos como o das chamadas “fake news” e dos “atos antidemocráticos” foram prorrogados indefinidamente, convertendo-se em instrumentos permanentes de intimidação política. O Judiciário passou a legislar, censurar e punir – e a imprensa, longe de exercer qualquer contenção crítica, aplaudiu.
A expansão descontrolada das competências do STF, regulando redes sociais, determinando remoções de conteúdo e chegando a suspender plataformas inteiras, como ocorreu com o Telegram em 2022 e nas reiteradas ameaças ao X/Twitter, instaurou no Brasil um regime de censura prévia sem precedentes desde a redemocratização. Relatórios internacionais registram queda contínua nos índices de liberdade de imprensa no país. Ainda assim, os mesmos jornalistas que celebram essas medidas continuam repetindo, sem pudor, o mantra da “defesa da democracia”.
O duplo padrão e a hipocrisia
A desfaçatez desse discurso é estarrecedora. Esses militantes de redação ajudaram a destruir o país ao justificar a anulação das condenações de políticos e operadores condenados por corrupção ou amplamente implicados em esquemas comprovados, ao mesmo tempo em que apoiaram a consolidação de um regime de censura e perseguição política. A chamada “defesa da democracia” revelou-se um expediente retórico para blindar um establishment apodrecido, exatamente o mesmo que se beneficiou da impunidade instaurada no pós-Lava Jato.
A diferença de tratamento dispensado aos governos Bolsonaro e Lula expõe o viés ideológico da grande imprensa sem qualquer disfarce. Durante o mandato de Jair Bolsonaro, a cobertura jornalística foi sistematicamente hostil: escândalos reais ou supostos eram explorados de forma cotidiana, acompanhados de manchetes alarmistas e análises que o apresentavam como uma ameaça autoritária permanente. Programas de grande audiência converteram a crítica ao então presidente em pauta recorrente, frequentemente monopolizando horas de transmissão.
(*Franklin Ferreira é bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Bíblia e Teologia pela Universidade Luterana do Brasil, mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e doutor em Divindade pelo Puritan Reformed Theological Seminary. É reitor e professor de Teologia Sistemática e História da Igreja no Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos (SP), professor-adjunto no Puritan Reformed Theological Seminary, em Grand Rapids-MI (Estados Unidos), e consultor acadêmico de Edições Vida Nova. Autor de vários livros.)


