GUERRA NO ORIENTE MÉDIO ELEVA CUSTOS DO SANEAMENTO NO PARANÁ E PODE AFETAR NOVAS LICITAÇÕES
PVC mais que dobrou de preço desde o início do conflito e ácido fluorsilícico acumula alta de 1.200% no ano. Sanepar alerta para encarecimento de obras, dificuldades de fornecimento e menor interesse do mercado em futuras contratações.
A guerra no Oriente Médio começou a produzir efeitos diretos sobre o setor de saneamento do Paraná, pressionando o preço de insumos essenciais e criando incertezas sobre futuras obras e licitações da Sanepar.
Segundo o presidente da companhia, Wilson Bley, o aumento do custo de matérias-primas já afeta a operação e os investimentos da empresa e pode reduzir o interesse de fornecedores e construtoras em participar de novos processos de contratação.
Entre os itens que mais preocupam estão o PVC, amplamente utilizado nas redes de água e esgoto, e o ácido fluorsilícico, empregado na fluoretação da água distribuída à população.
PVC SUBIU MAIS DE 100%
O PVC está entre os materiais mais afetados pela escalada internacional de preços.
De acordo com Bley, o produto sofreu alta superior a 100% desde o início da guerra.
O impacto é relevante porque tubos, conexões e diferentes componentes produzidos com PVC fazem parte de praticamente todas as obras de expansão, manutenção e modernização de redes de abastecimento de água e esgotamento sanitário.
Além do preço maior, a companhia também enfrenta dificuldades pontuais de aquisição de alguns materiais.
DIESEL TAMBÉM PRESSIONA TRANSPORTE
Outro fator é o aumento do preço do diesel.
Como grande parte dos materiais utilizados pela Sanepar precisa ser transportada por longas distâncias, o combustível encarece tanto a entrega de insumos quanto a mobilização de equipes e equipamentos.
Isso significa que a pressão internacional não atinge apenas o material empregado diretamente nas obras.
Ela também alcança toda a cadeia logística necessária para fazer esses produtos chegarem aos canteiros e unidades operacionais.
FLÚOR TEM ALTA DE 1.200% NO ANO
A situação mais extrema envolve o ácido fluorsilícico, utilizado no processo de fluoretação da água.
Segundo os dados apresentados pelo setor, o produto acumula alta de aproximadamente 1.200% desde o início de 2026.
Além do aumento expressivo de preço, o insumo está em falta no mercado brasileiro.
A escassez levou representantes do setor de saneamento a solicitar ao Ministério da Saúde autorização para uma suspensão temporária de 90 dias da fluoretação, período que serviria para reorganizar o abastecimento e permitir que o mercado encontrasse alternativas de fornecimento.
MINISTÉRIO DA SAÚDE AINDA ANALISA PEDIDO
O Ministério da Saúde resiste, até agora, a uma interrupção generalizada da fluoretação e continua analisando o assunto.
No Paraná, a Sanepar mantém tratativas com o próprio ministério, com a Secretaria de Estado da Saúde e com a Vigilância Sanitária para estabelecer procedimentos caso seja necessário interromper temporariamente o uso do produto em alguma região.
A companhia afirma que trabalha preventivamente para evitar que uma eventual falta do insumo provoque decisões improvisadas.
NÃO HÁ RISCO IMEDIATO DE DESABASTECIMENTO
Apesar da pressão sobre os insumos, a Sanepar afirma que não trabalha neste momento com cenário de desabastecimento generalizado de água.
Segundo Wilson Bley, a empresa mantém estoques que oferecem alguma margem de segurança enquanto alternativas de fornecimento são buscadas.
A preocupação principal está no aumento de custos e na disponibilidade futura dos produtos.
LICITAÇÕES PODEM PERDER INTERESSE
O impacto da guerra pode atingir diretamente os próximos investimentos da companhia.
Bley disse que não sabe se futuras licitações terão o mesmo interesse do mercado diante da rápida defasagem entre os valores previstos nos editais e os preços atualmente praticados pelos fornecedores.
Quando materiais como PVC, combustíveis e produtos químicos sobem de maneira brusca, empresas contratadas passam a enfrentar dificuldades para manter propostas elaboradas com base em custos anteriores.
Isso aumenta o risco de licitações desertas, propostas acima do orçamento ou necessidade de revisão de valores.
“PREÇOS ESTÃO EM DISCORDÂNCIA”
Ao comentar a possibilidade de novas licitações, o presidente da Sanepar afirmou que a companhia acompanha com atenção o comportamento do mercado.
Segundo ele, a preocupação é saber se haverá empresas dispostas a assumir contratos quando os preços de referência utilizados pela administração já não refletem integralmente os custos atuais.
Bley resumiu o problema afirmando que os valores estão “em discordância com os valores cobrados nesse momento”.
AUMENTOS PODEM SE TORNAR PERMANENTES
Outro ponto de preocupação é que parte da alta de preços pode não desaparecer mesmo depois de uma estabilização do conflito.
Segundo o presidente da Sanepar, choques internacionais costumam produzir altas rápidas, mas a queda dos preços ocorre de maneira muito mais lenta.
E, muitas vezes, os valores não retornam aos níveis anteriores.
Por isso, a empresa já considera a possibilidade de que parte do encarecimento se torne estrutural.
NOVO PATAMAR DE CUSTOS
Esse cenário obrigaria a companhia a trabalhar com uma realidade de custos permanentemente mais elevada.
Na prática, isso significa rever estimativas de obras, contratos, cronogramas, aquisições e investimentos.
Projetos que eram economicamente viáveis com determinado preço de PVC, combustível ou produtos químicos podem precisar ser recalculados.
PRESSÃO SOBRE DESPESAS OPERACIONAIS
O impacto não está restrito às grandes obras.
Produtos químicos utilizados no tratamento da água fazem parte das despesas operacionais permanentes.
Se esses insumos sobem de forma expressiva, a operação cotidiana da companhia também se torna mais cara.
Esse tipo de aumento tende a pressionar orçamento, planejamento financeiro e disponibilidade de recursos para novos investimentos.
SANEAMENTO DEPENDE DE CADEIAS INTERNACIONAIS
A situação também revela o grau de dependência do setor de saneamento em relação às cadeias globais de fornecimento.
Mesmo empresas que operam localmente utilizam materiais cujos preços são influenciados por petróleo, derivados petroquímicos, energia, fretes internacionais e disponibilidade de matérias-primas.
O PVC é um exemplo claro.
Seu preço está diretamente relacionado à indústria petroquímica e, portanto, reage rapidamente a crises geopolíticas que afetam petróleo, gás e transporte internacional.
FLUORETAÇÃO SE TORNA PONTO SENSÍVEL
No caso do ácido fluorsilícico, o problema é ainda mais delicado.
A substância é usada na fluoretação da água, medida de saúde pública adotada há décadas em diferentes regiões do Brasil.
Por isso, uma eventual interrupção não depende apenas de decisão operacional da empresa de saneamento.
Ela envolve autoridades sanitárias, protocolos técnicos e avaliação de impactos sobre a população.
COMPANHIA BUSCA ALTERNATIVAS
A Sanepar afirma que procura novas alternativas de fornecimento enquanto acompanha a evolução do mercado.
A estratégia é tentar diversificar fornecedores e evitar que a escassez de um único produto comprometa serviços essenciais.
Ao mesmo tempo, a empresa monitora os estoques disponíveis para definir onde e por quanto tempo consegue manter as operações normalmente caso a situação internacional continue pressionando a oferta.
OBRAS TAMBÉM PODEM SER REPROGRAMADAS
Se o cenário de custos permanecer, alguns projetos podem exigir reavaliação.
Isso não significa necessariamente cancelamento de obras, mas pode resultar em alterações de cronogramas, revisão de orçamentos ou reestruturação de licitações.
Empresas contratadas também tendem a incorporar o risco internacional aos preços apresentados em novos certames.
O IMPACTO PODE CHEGAR À EXPANSÃO DOS SERVIÇOS
A Sanepar possui planos contínuos de expansão das redes de água e esgoto no Paraná.
Esses investimentos dependem de grande volume de tubos, conexões, produtos químicos, combustíveis, equipamentos e serviços especializados.
Quando todos esses elementos ficam mais caros ao mesmo tempo, o efeito pode aparecer no ritmo das obras.
A preocupação da companhia é justamente impedir que o choque internacional comprometa metas de expansão do saneamento.
PARANÁ ACOMPANHA CENÁRIO GLOBAL
O episódio mostra como uma guerra distante geograficamente pode afetar diretamente serviços básicos prestados no Paraná.
A elevação dos preços do petróleo, o encarecimento do transporte, a dificuldade de importação de produtos e a interrupção de cadeias produtivas acabam chegando a setores essenciais.
Água e esgoto, normalmente percebidos como serviços essencialmente locais, também dependem de um mercado internacional complexo.
SANEAMENTO ENTRA EM FASE DE CAUTELA
A Sanepar ainda não trabalha com cenário de crise de abastecimento.
Mas a companhia reconhece que o momento exige cautela.
Se os preços continuarem elevados e alguns insumos permanecerem escassos, o impacto poderá aparecer com mais força nas despesas operacionais e nos investimentos previstos para os próximos meses.
A principal preocupação está em saber quanto desse aumento será temporário e quanto passará a fazer parte de um novo patamar permanente de custos.
Para o setor de saneamento paranaense, a guerra no Oriente Médio deixou de ser apenas uma questão internacional.
Ela já começou a chegar às planilhas de custos, às licitações e ao planejamento das obras que garantem água tratada e coleta de esgoto para milhões de moradores do Paraná.
(Da Redação do IGU News)




