QUASE METADE DOS MÉDICOS DE UTI NO BRASIL TEM EXAUSTÃO EMOCIONAL E RISCO DE BURNOUT
Levantamento nacional com 2.338 médicos de 26 estados e do Distrito Federal mostra que 48,5% apresentam exaustão emocional elevada e 68,9% têm ao menos uma das dimensões associadas ao burnout alterada. Jornadas extensas, múltiplos vínculos e pressão por decisões críticas aparecem entre os principais fatores de risco.
Quase metade dos médicos que trabalham em unidades de terapia intensiva no Brasil apresenta níveis elevados de exaustão emocional, uma das principais dimensões associadas à síndrome de burnout.
O dado faz parte do Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, realizado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM).
A pesquisa ouviu 2.338 médicos com pelo menos um ano de atuação contínua em terapia intensiva, distribuídos por 26 estados e o Distrito Federal.
Os resultados mostram que 48,5% dos intensivistas apresentam exaustão emocional elevada e relatam sensação de incapacidade para cumprir adequadamente suas atividades do ponto de vista físico e mental.
68,9% APRESENTAM PELO MENOS UMA DIMENSÃO ALTERADA
O estudo avaliou três componentes tradicionalmente associados ao burnout: exaustão emocional, despersonalização e realização profissional.
Quando analisadas em conjunto, 68,9% dos médicos apresentaram pelo menos uma dessas três dimensões alterada.
O número evidencia que os sinais de desgaste profissional vão muito além do grupo que apresenta apenas exaustão emocional.
É importante, entretanto, uma ressalva técnica: o questionário utilizado no levantamento identifica e mensura dimensões relacionadas ao burnout, mas não estabelece sozinho um diagnóstico clínico da síndrome.
16% APRESENTAM DESPERSONALIZAÇÃO EM NÍVEL ELEVADO
Outra dimensão analisada foi a despersonalização.
Segundo o levantamento, 16% dos médicos apresentam nível agudo dessa característica, marcada por distanciamento afetivo, perda de empatia e atitudes mais frias ou cínicas na relação com pacientes e colegas.
Em uma unidade de terapia intensiva, esse dado merece atenção especial.
A rotina exige contato permanente com pacientes em estado crítico, familiares fragilizados e decisões que muitas vezes precisam ser tomadas em poucos minutos.
46,4% SENTEM BAIXA REALIZAÇÃO PROFISSIONAL
A pesquisa encontrou ainda outro sinal expressivo de desgaste.
46,4% dos médicos de UTI relataram baixa realização profissional.
Isso significa que uma parcela importante desses profissionais não percebe no próprio trabalho níveis satisfatórios de realização, reconhecimento ou eficácia pessoal.
O problema aparece justamente em uma das áreas médicas que exigem maior treinamento técnico, disponibilidade permanente e capacidade de resposta diante de situações extremas.
PLANTÕES EXTENSOS E MÚLTIPLOS EMPREGOS
Entre os principais fatores relacionados à deterioração da saúde mental aparecem as longas jornadas de trabalho, os plantões consecutivos e a necessidade de manter mais de um vínculo profissional.
A exposição contínua a dor, sofrimento, morte e decisões de alta complexidade também pesa sobre os intensivistas.
A combinação forma um ambiente particularmente vulnerável ao estresse crônico.
Em uma UTI, erros podem ter consequências imediatas.
O profissional trabalha, portanto, sob a exigência constante de tomar decisões rápidas e precisas, mesmo depois de muitas horas seguidas de trabalho.
PESQUISA FOI REALIZADA COM INSTRUMENTO INTERNACIONAL
As respostas foram coletadas entre março e outubro de 2024 por meio do Maslach Burnout Inventory (MBI).
O instrumento é amplamente utilizado internacionalmente para avaliar diferentes dimensões relacionadas ao burnout.
Os médicos responderam a 22 situações relacionadas ao trabalho, depois agrupadas nas três dimensões examinadas pelo estudo.
Embora o MBI seja uma ferramenta de referência para pesquisas sobre burnout, os responsáveis enfatizam que ele não substitui uma avaliação clínica individual.
CONDIÇÕES DE TRABALHO PESAM MAIS QUE “FALTA DE RESILIÊNCIA”
O presidente do conselho consultivo da Amib, Ederlon Rezende, chama atenção para uma mudança importante na maneira como o burnout vem sendo compreendido.
Durante muito tempo, o esgotamento profissional foi atribuído excessivamente à capacidade individual de enfrentar pressão, à resiliência ou à inteligência emocional.
Hoje, segundo Rezende, há evidências de que as condições de trabalho desempenham papel fundamental na ocorrência do problema.
Essa mudança de perspectiva transfere parte da discussão do comportamento individual para a organização dos serviços de saúde.
Não basta recomendar que o médico descanse ou aprenda a lidar melhor com o estresse se sua rotina continua estruturada sobre jornadas excessivas e equipes insuficientes.
SONO SAUDÁVEL REDUZ RISCO
Um dos resultados mais objetivos do levantamento envolve a qualidade do sono.
Médicos com sono considerado saudável apresentaram risco de burnout 20% menor.
Entre profissionais satisfeitos com a própria vida, a redução do risco chegou a aproximadamente 25%.
Atividade física, convívio social, lazer e alimentação adequada também aparecem associados a maior satisfação com a vida e menor risco de esgotamento.
Esses fatores, contudo, não eliminam a influência das condições estruturais de trabalho.
UTI FUNCIONA 24 HORAS POR DIA
A medicina intensiva possui uma característica que torna o debate sobre descanso ainda mais complexo.
UTIs precisam contar com médicos 24 horas por dia, sete dias por semana.
Isso significa que plantões noturnos são inevitáveis.
O problema aparece quando escalas sucessivas impedem recuperação adequada.
Rezende alerta que não é compatível com uma assistência segura permitir jornadas extremas, mencionando como exemplo médicos trabalhando 72 horas seguidas ou repetidamente durante todas as noites.
ESGOTAMENTO TAMBÉM PODE AFETAR PACIENTES
A preocupação não envolve apenas o bem-estar do médico.
O presidente da Amib, Cristiano Franke, destaca que jornadas excessivamente longas aumentam a estafa e também a probabilidade de erros.
Por isso, a organização defende mudanças relacionadas à estrutura das UTIs, dimensionamento quantitativo e qualitativo das equipes e regulamentação da carga horária.
A discussão sobre burnout passa, portanto, a ser também uma questão de segurança assistencial.
Um profissional exausto pode apresentar dificuldades de atenção, concentração e tomada de decisão — justamente funções essenciais no ambiente de terapia intensiva.
54,2% DIZEM ESTAR SATISFEITOS COM A VIDA
O inquérito encontrou também um dado aparentemente contraditório.
Apesar dos elevados indicadores de desgaste profissional, 54,2% dos participantes afirmaram estar satisfeitos com a vida.
Para os pesquisadores, isso demonstra que vida profissional e percepção global de bem-estar não são necessariamente equivalentes.
Um médico pode estar satisfeito com família, relacionamentos ou vida pessoal e, ainda assim, trabalhar em condições que aumentam significativamente o risco de esgotamento.
QUALIFICAÇÃO TAMBÉM FOI ANALISADA
O estudo dividiu os profissionais em três grandes grupos.
O primeiro reúne médicos com Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em Medicina Intensiva.
O segundo inclui profissionais de especialidades relacionadas, como clínica médica, cirurgia geral, pediatria, cardiologia, nefrologia, anestesiologia e pneumologia.
O terceiro abrange médicos com registros de especialidades não diretamente relacionadas à terapia intensiva e também profissionais sem RQE que atuam nas UTIs.
O objetivo foi avaliar de que forma qualificação, treinamento e especialização se relacionam com assistência ao paciente, condições de trabalho e saúde mental.
FORMAÇÃO CONTINUADA PODE FUNCIONAR COMO PROTEÇÃO
Embora o levantamento não aprofunde completamente essa relação, os dados indicam que educação continuada e titulação acadêmica podem funcionar como fatores de proteção contra estresse crônico.
A constatação reforça a importância de formação específica para profissionais que assumem cuidados de pacientes criticamente enfermos.
A UTI exige domínio técnico de ventilação mecânica, drogas vasoativas, monitorização, infecções graves, insuficiência de múltiplos órgãos e procedimentos de emergência, entre muitas outras competências.
DEBATE TAMBÉM CHEGA À FORMAÇÃO MÉDICA
O presidente eleito da Associação Médica Brasileira para o período 2027-2029, José Eduardo Dolci, relaciona parte das dificuldades do sistema à expansão da formação médica sem crescimento equivalente das vagas de residência e dos campos de treinamento.
Segundo ele, o aumento de escolas médicas criou um novo desafio: formar profissionais em quantidade não garante, sozinho, qualificação suficiente para áreas de alta complexidade.
A avaliação acrescenta mais uma dimensão ao problema das UTIs: não se trata apenas de ter médicos disponíveis, mas de oferecer equipes suficientes, treinadas e trabalhando em condições sustentáveis.
UM ALERTA PARA A MEDICINA INTENSIVA BRASILEIRA
O retrato nacional produzido pela Amib e pelo CFM expõe uma contradição importante.
As unidades de terapia intensiva são reservadas justamente aos pacientes que necessitam de maior vigilância, capacidade técnica e rapidez nas decisões.
Mas uma parcela expressiva dos profissionais responsáveis por esse cuidado trabalha sob níveis elevados de desgaste.
48,5% apresentam exaustão emocional elevada.
46,4% relatam baixa realização profissional.
16% apresentam despersonalização em nível elevado.
E 68,9% têm ao menos uma das três dimensões avaliadas alterada.
Os números colocam o burnout médico para além de uma questão individual.
Eles apontam para um problema relacionado à organização do trabalho, qualidade das escalas, composição das equipes, formação profissional e segurança dos próprios pacientes.
A mensagem do levantamento é clara: cuidar de quem trabalha diariamente no limite entre a vida e a morte deixou de ser apenas uma questão de qualidade de vida dos médicos.
Passou a ser também uma condição para a qualidade da própria terapia intensiva brasileira.
(Da Redação do IGU News)





