Opinião

Editorial IGU News: 7 DE SETEMBRO DÁ PROTAGONISMO A MENDONÇA E EXPÕE UM STF QUE PRECISA SE EXPLICAR

As ruas não podem julgar ministros, mas tampouco podem ser ignoradas quando revelam uma crise de confiança. O protagonismo conquistado por André Mendonça neste 7 de Setembro é menos sobre um novo herói e mais sobre a necessidade urgente de equilíbrio, transparência e limites no Supremo.

O 7 de Setembro de 2026 produziu uma imagem política que dificilmente poderá ser ignorada nos próximos dias: André Mendonça deixou os limites do Supremo Tribunal Federal e passou a ocupar o imaginário das manifestações populares.

Faixas, cartazes e manifestações públicas de apoio ao ministro apareceram ao lado das tradicionais críticas ao presidente Lula e dos pedidos de saída ou impeachment de Alexandre de Moraes.

Na Avenida Paulista, em Brasília e em outras capitais, a oposição transformou a crise interna do STF em um dos principais temas do Dia da Independência. Diferentes coberturas registraram apoio explícito a Mendonça e críticas a Moraes.

O fato merece atenção.

Não porque a popularidade de um magistrado deva determinar o conteúdo de suas decisões. Não deve.

Muito menos porque manifestações de rua possam substituir a Constituição, o devido processo legal ou os mecanismos institucionais de responsabilização.

Mas porque existe algo politicamente novo acontecendo.

MENDONÇA DEIXOU DE SER APENAS MAIS UM MINISTRO

Durante boa parte de sua passagem pelo Supremo, André Mendonça permaneceu identificado principalmente pela circunstância de sua indicação pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e por sua formação religiosa.

Neste 7 de Setembro, essa imagem mudou.

Mendonça passou a ser percebido por parte expressiva da direita como um contraponto interno a Alexandre de Moraes, justamente num momento em que a atuação deste último voltou ao centro de uma grave controvérsia institucional.

Não é pouca coisa.

Durante anos, a oposição criticou decisões de Moraes, promoveu manifestações, pediu impeachment e denunciou o que considera excessos na condução de inquéritos e processos.

Agora, pela primeira vez em muito tempo, o confronto deixou de ocorrer apenas entre um ministro do Supremo e atores externos ao tribunal.

Ele chegou ao interior da própria Corte.

A CRISE MUDOU DE PATAMAR

As revelações relacionadas às mensagens encontradas no aparelho de Daniel Vorcaro, investigado no caso Banco Master, provocaram uma disputa aberta entre ministros do Supremo.

Mendonça retirou o sigilo de material que continha referências a comunicações envolvendo Moraes e Vorcaro. Moraes, por sua vez, pediu apuração sobre a conduta de Mendonça, acusando o colega de irregularidades na condução de investigações.

Nenhuma dessas acusações autoriza antecipar culpa.

Nem Moraes pode ser condenado pela opinião pública sem investigação e contraditório.

Nem Mendonça pode ser automaticamente transformado em modelo de correção apenas porque tornou públicos documentos que atingem um ministro fortemente contestado pela direita.

A gravidade está justamente em outro ponto: o conflito alcançou uma dimensão que exige resposta institucional do próprio Supremo.

Silêncio, corporativismo ou soluções construídas apenas nos bastidores já não serão suficientes.

NINGUÉM DEVE SER INTOCÁVEL

Há uma ideia elementar que precisa ser restabelecida no debate brasileiro: instituições fortes não são aquelas cujos integrantes estão protegidos de questionamentos.

São aquelas capazes de investigar seus próprios integrantes sem destruir a instituição.

O Supremo não se fortalece protegendo ministros de qualquer escrutínio.

Também não se fortalece permitindo que divergências entre seus membros sejam transformadas em batalhas pessoais ou instrumentos processuais de retaliação.

Se existem dúvidas objetivas sobre condutas de Alexandre de Moraes, elas precisam ser esclarecidas.

Se existem dúvidas sobre a atuação de André Mendonça, também.

A mesma régua institucional deve valer para ambos.

É precisamente aí que reside a oportunidade desta crise.

FACHIN TEM UMA RESPONSABILIDADE HISTÓRICA

O presidente do STF, Edson Fachin, ocupa agora posição decisiva.

A Presidência da Corte retirou das mãos de Moraes a condução direta do pedido formulado contra Mendonça e submeteu a controvérsia a um procedimento sob sua supervisão, com manifestações das instituições e envolvidos antes dos próximos passos.

É uma providência importante.

Não significa absolver Mendonça.

Também não significa condenar Moraes.

Significa reconhecer que um conflito dessa natureza não pode permanecer sob controle exclusivo de um de seus próprios protagonistas.

O próximo passo deverá ser ainda mais importante: garantir que a sociedade saiba o que está sendo analisado, segundo quais regras e com quais limites.

A transparência deixou de ser opção.

É necessidade institucional.

AS RUAS MANDARAM UMA MENSAGEM

O tamanho das manifestações pode ser discutido.

Os números ficaram muito abaixo de episódios históricos, como os grandes atos realizados durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Mas seria erro interpretar apenas a quantidade de pessoas.

A novidade está na pauta.

O “Fora Moraes”, já conhecido, passou a conviver com uma mensagem afirmativa: apoio a André Mendonça.

Houve manifestações dessa natureza em diferentes capitais, e a mobilização foi incorporada aos discursos de políticos e candidatos.

Esse fenômeno merece ser compreendido sem romantização.

O país não precisa substituir o culto a um ministro pelo culto a outro.

Juízes constitucionais não deveriam possuir torcida.

Não são candidatos.

Não dependem de aprovação popular para decidir.

Mas também não exercem autoridade em um vácuo político e social.

A legitimidade institucional é construída igualmente pela percepção de imparcialidade, equilíbrio e respeito às regras.

O ERRO SERIA TRANSFORMAR MENDONÇA EM HERÓI

Existe um risco evidente para a própria direita.

Transformar André Mendonça em símbolo político pode terminar enfraquecendo justamente aquilo que hoje seus apoiadores dizem defender: sua independência como magistrado.

Mendonça terá decisões difíceis pela frente.

Algumas poderão agradar seus atuais defensores.

Outras poderão desagradá-los profundamente.

É assim que deve funcionar.

Se sua atuação for condicionada à expectativa das ruas, apenas substituiríamos um problema por outro.

O mérito do atual momento não está em descobrir um ministro “nosso” contra um ministro “deles”.

Está em demonstrar que nenhum integrante do Supremo pode ser considerado acima dos mecanismos de controle institucional.

MORAES TAMBÉM TEM DIREITO AO DEVIDO PROCESSO

O mesmo princípio deve proteger Alexandre de Moraes.

As acusações que hoje atingem o ministro são graves e precisam ser esclarecidas.

Mas gravidade não equivale a culpa.

O fato de Moraes ter acumulado forte rejeição em setores da sociedade não elimina seu direito ao contraditório, à defesa e à avaliação objetiva das evidências.

Exigir investigação séria não é o mesmo que exigir condenação antecipada.

É justamente essa diferença que separa um Estado de Direito de uma disputa puramente política.

O IGU News considera legítimo e necessário que todas as questões relacionadas às comunicações reveladas, às relações mencionadas nas investigações e às decisões adotadas sejam examinadas até o fim.

Com documentos.

Com contraditório.

Com transparência.

E sem blindagem corporativa.

O SUPREMO NÃO PODE SER PROPRIEDADE DE SEUS MINISTROS

Talvez essa seja a principal mensagem institucional deste 7 de Setembro.

O STF pertence à República.

Não pertence a Alexandre de Moraes.

Não pertence a André Mendonça.

Não pertence a Edson Fachin.

Também não pertence à direita, à esquerda, ao governo ou à oposição.

Ministros passam.

A Corte permanece.

Por isso, preservar o Supremo não significa defender incondicionalmente cada comportamento de seus integrantes.

Às vezes, preservar uma instituição significa precisamente ter coragem para investigar aquilo que possa comprometer sua credibilidade.

UM MOMENTO DECISIVO

Os próximos dias poderão determinar muito mais do que o destino político de dois ministros.

Estará em jogo a capacidade do STF de enfrentar uma crise interna sem recorrer à autoproteção e sem permitir que a disputa seja capturada exclusivamente pela campanha eleitoral.

Mendonça ganhou protagonismo nas ruas.

Moraes entrou em seu momento mais delicado de contestação pública.

Fachin recebeu a responsabilidade de conduzir institucionalmente uma situação extraordinária.

E o Senado permanece diante de suas próprias competências constitucionais.

Nenhuma dessas instituições deveria agir movida pelo grito mais alto.

Mas nenhuma delas pode fingir que nada aconteceu.

A MELHOR RESPOSTA É A LUZ

O Brasil não precisa de um Supremo enfraquecido.

Precisa de um Supremo confiável.

E confiança não se decreta em nota oficial.

Constrói-se por decisões coerentes, procedimentos transparentes, respeito às competências constitucionais e disposição para submeter todos — inclusive os mais poderosos — às mesmas regras.

O protagonismo recebido por André Mendonça neste 7 de Setembro será positivo apenas se contribuir para isso.

Não para criar um novo personagem acima de críticas.

Mas para recordar uma verdade essencial da República:

não existem poderes legítimos sem limites, autoridades confiáveis sem fiscalização nem instituições fortes quando seus integrantes se tornam intocáveis.

Este é o verdadeiro teste que começa depois das manifestações.

E talvez seja um dos mais importantes enfrentados pelo Supremo Tribunal Federal nos últimos anos.

(Da Redação do IGU News)

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